1862
A F. X.
DE NOVAIS
Qu’aperçois-tu,
mon âme? Au fond, n’est-ce-pas Dieu?
Tu vais à
lui...
V. DE
LAPRADE
Sinto que
há na minh’alma um vácuo imenso e fundo,
E desta
meia morte o frio olhar do mundo
Não vê o
que há de triste e de real em mim;
Muita
vez, ó poeta, a dor é casta assim;
Refolha-se,
não diz no rosto o que ela é,
E nem que
o revelasse, o vulgo não põe fé
Nas
tristes comoções da verde mocidade,
E responde
sorrindo à cruel realidade.
Não assim
tu, ó alma, ó coração amigo;
Nu, como
a consciência, abro-me aqui contigo;
Tu que
corres, como eu, na vereda fatal
Em busca
do mesmo alvo e do mesmo ideal.
Deixemos
que ela ria, a turba ignara e vã;
Nossas
almas a sós, como irmão junto a irmã,
Em santa
comunhão, sem cárcere, nem véus,
Conversarão
no espaço e mais perto de Deus.
Deus
quando abre ao poeta as portas desta vida
Não lhe
depara o gozo e a glória apetecida;
Traja de
luto a folha em que lhe deixa escritas
A suprema
saudade e as dores infinitas.
Alma
errante e perdida em um fatal desterro,
Neste
primeiro e fundo e triste limbo do erro,
Chora a
pátria celeste, o foco, o cetro, a luz,
Onde o
anjo da morte, ou da vida, o conduz,
No dia
festival do grande livramento;
Antes
disso, a tristeza, o sombrio tormento,
O torvo
azar, e mais, a torva solidão,
Embaciam-lhe
n’alma o espelho da ilusão.
O poeta
chora e vê perderem-se esfolhadas
Da verde
primavera as flores tão cuidadas;
Rasga,
como Jesus, no caminho das dores,
Os lassos
pés; o sangue umedece-lhe as flores
Mortas
ali, — e a fé, a fé mãe, a fé santa,
Ao vento
impuro e mau que as ilusões quebranta,
Na alma
que ali se vai muitas vezes vacila...
Oh! feliz
o que pode, alma alegre e tranqüila,
A
esperança vivaz e as ilusões floridas,
Atravessar
cantando as longas avenidas
Que levam
do presente ao secreto porvir!
Feliz
esse! Esse pode amar, gozar, sentir,
Viver
enfim! A vida é o amor, é a paz,
É a doce
ilusão e a esperança vivaz;
Não esta
do poeta, esta que Deus nos pôs
Nem como
inútil fardo, antes como um algoz.
O poeta
busca sempre o almejado ideal...
Triste e
funesto afã! tentativa fatal!
Nesta
sede de luz, nesta fome de amor,
O poeta
corre à estrela, à brisa, ao mar, à flor;
Quer
ver-lhe a luz na luz da estrela peregrina,
Quer–lhe
o cheiro aspirar na rosa da campina,
Na brisa
o doce alento, a voz na voz do mar,
Ó inútil
esforço! Ó ímprobo lutar!
Em vez da
luz, do aroma, ou do alento ou da voz,
Acha-se o
nada, o torvo, o impassível algoz!
Onde te
escondes, pois, ideal da ventura?
Em que
canto da terra, em que funda espessura
Foste
esconder, ó fada, o teu esquivo lar?
Dos
homens esquecido, em ermo recatado,
Que voz
do coração, que lágrima, que brado
Do sono
em que ora estás te virá despertar?
A esta
sede de amar só Deus conhece a fonte?
Jorra ele
ainda além deste fundo horizonte
Que a
mente não calcula, e onde se perde o olhar?
Que asas
nos deste, ó Deus, para transpor o espaço?
Ao ermo
do desterro inda nos prende um laço:
Onde
encontrar a mão que o venha desatar?
Creio que
só em ti há essa luz secreta,
Essa
estrela polar dos sonhos do poeta,
Esse
alvo, esse termo, esse mago ideal;
Fonte de
todo o ser e fonte da verdade,
Nós vamos
para ti, e em tua imensidade
É que
havemos de ter o repouso final.
É triste
quando a vida, erma, como esta, passa,
E quando
nos impele o sopro da desgraça
Longe de
ti, ó Deus, e distante do amor!
Mas
guardemos, poeta, a melhor esperança:
Sucederá
a glória à salutar provança:
O que a
terra não deu, dar-nos-á o Senhor!
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