A LEITURA ENGRANDECE A ALMA

"A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede." (Carlos Drummond de Andrade)
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sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Crepúsculo da Noite

O dia acaba. Uma grande paz surge nos pobres espíritos fatigados pelo trabalho da jornada e seus pensamentos tomam agora as cores ternas e indecisas do crepúsculo.

Entretanto, do alto da montanha chega à minha sacada, através das nuvens transparentes da tarde, um grande uivo, composto por uma multidão de gritos discordantes que o espaço transforma em lúgubre harmonia, como a da maré que sobe ou a ameaça de uma tempestade.

Quem são os desditosos que a tarde no acalma e que tomam, como as corujas, a chegada da noite como um sinal do sabá? Esta sinistra ululação nos chega do negro hospício empoleirado sobre a montanha; e à tarde, fumando e contemplando o repouso do imenso vale, arrepiado de casas onde cada janela diz: “A paz agora está aqui, está aqui a alegria da família”, eu posso, quando o vento sopra do alto, embalar meus pensamentos assombrados por essa imitação das harmonias do inferno.

O crepúsculo excita os loucos. Lembro-me que tinha dois amigos que o crepúsculo tornava doentes. Um passou a desconhecer todas as relações de amizade e de polidez, e maltratava, como um selvagem, o primeiro que aparecesse. ‘Vi-o jogar na cabeça de um mattre de hotel um excelente frango, em que ele via não sei qual hieróglifo insultante. A noite, precursora de profundas volúpias, para ele estragava as coisas mais suculentas!

O outro, um ambicioso frustrado, tornava-se, à medida que o dia baixava, mais azedo, mais sombrio, mais impertinente. Indulgente e sociável durante o dia, ficava impiedoso à noite, e exercia, raivosamente, suas manias crepusculares não somente em relação aos outros, mas, também, consigo próprio.

O primeiro morreu louco, incapaz de reconhecer sua mulher e o filho; o segundo leva em si a inquietude de um mal-estar perpétuo, e mesmo se fosse gratificado com todas as honras que possam conferir as repúblicas e os príncipes, creio que o crepúsculo acenderia ainda nele o ardente desejo de receber distinções imaginárias. À noite, que introduzia trevas em seu espírito, iluminava o meu, e, ainda que seja raro ver-se a mesma causa engendrar dois efeitos contrários, deixa-me sempre como que intrigado e alarmado.

Ó noite! Ó refrescantes trevas! Vós sois para mimo sinal de uma festa interior, vós sois a redenção de uma angústia! Na solidão das planícies, nos labirintos pedregosos de uma capital, a cintilação das estrelas, a explosão das lanternas, vós sois o fogo de artifício da deusa Liberdade!

Crepúsculo, como sois doce e terno! Os clarões róseos que se arrastam ainda no horizonte, como a agonia do dia sob a opressão vitoriosa da sua noite, os fogos dos candelabros que criam manchas de um vermelho opaco sobre as últimas glórias do poente, os pesados cortinados que uma mão invisível atrai das profundezas do Oriente, imitam todos os sentimentos complicados que lutam no coração do homem nas horas solenes de sua vida.

Dir-se-ia, ainda, uma dessas vestes estranhas de dançarinas, onde uma gaze transparente e sombria deixa entrever os esplendores amortecidos de uma saia deslumbrante, como sob o negro presente transparece o delicioso passado; e as estrelas vacilantes, de ouro e prata, dos quais é semeada, representam estes fogos da fantasia que só se iluminam bem sob o luto fechado da Noite.

Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

Os Dons das Fadas

Era um grande encontro de fadas para proceder à distribuição de dons entre todos os recém-nascidos, chegados à vida, nas últimas vinte e quatro horas.

Todas essas antigas e caprichosas Irmãs do Destino, todas essas mães bizarras da alegria e da dor eram bem diferentes: umas tinham o ar sombrio e ranzinza, outras um ar caçoador e malicioso; umas jovens que sempre foram jovens e outras velhas que sempre foram velhas.

Todos os pais que tinham fé nas fadas vieram, trazendo, cada um deles, seu recém-nascido nos braços.

Os Dons, as Faculdades, as Boas Sortes, as Circunstâncias invencíveis estavam acumuladas ao lado do tribunal, sobre o estrado, para uma distribuição de prêmios. O que havia ali de particular é que os Dons não eram a recompensa de um esforço mas, pelo contrário, uma graça concedida aquele que ainda não vivera e que poderia determinar seu destino e tornar-se tanto a fonte de sua infelicidade quanto a de sua felicidade.

As pobres Fadas estavam muito ocupadas, pois a multidão de solicitantes era grande, e o mundo intermediário, colocado entre o homem e Deus, é tão submetido quanto nós à terrível lei do Tempo e de sua infinita posteridade: os Dias, as Horas, os Minutos e os Segundos.

Na verdade, elas encontravam-se tão atordoadas quanto os ministros em dias de audiência ou os empregados do Montepio (penhor) quando um feriado nacional autorizava os resgates gratuitos de empenhos. Creio, mesmo, que elas olhavam de tempo em tempo os ponteiros do relógio com tanta impaciência quanto os juízes humanos que, trabalhando desde manhã cedo, não podem se impedir de sonhar com o jantar junto à família, e com seus caros chinelos. Se, na justiça sobrenatural, há um pouco de precipitação e de acaso, não nos espantemos que assim seja, também, na justiça humana, algumas vezes. Nós seríamos, nós mesmos, nesses casos, injustos juízes.

Também foram cometidos alguns enganos nesse dia, que poderiam ser considerados bizarros, se a prudência, mais do que o capricho, fosse um caráter distintivo, eterno das Fadas.

Assim, o poder de atrair magneticamente uma fortuna foi concedido ao herdeiro único de uma família muito rica que, não sendo dotado de qualquer senso de caridade, nem de qualquer cobiça por todos os bens visíveis da vida, deveria se achar, mais tarde, prodigiosamente embaraçado com seus milhões.

Assim foram dados o Amor ao Belo e o Poder Poético ao filho de um pobre sombrio, pedreiro de profissão, que não podia, de nenhum modo, ajudar as capacidades nem suavizar as necessidades de sua deplorável progenitura.

Esqueci de lhes dizer que a distribuição, nesses casos solenes, não tem apelação, e que nenhum dom pode ser recusado.

Todas as Fadas se levantaram, crendo concluídas suas cansativas obrigações porque não havia mais qualquer presente, nem generosidade a distribuir para toda aquela massa humana ignara, quando um homem de bem, um pobre pequeno comerciante, eu creio, levantou-se, e, agarrando a roupa de vapores multicores da Fada que estava mais próxima e a seu alcance, gritou: “Ei! Minha senhora, esqueceu-se de nós?! Há ainda o meu pequeno. Não aceito ter vindo aqui por nada!”

A Fada poderia ter ficado embaraçada, porque nada havia restado, Entretanto, ela se lembrou, a tempo, de uma lei bem conhecida conquanto raramente aplicada no mundo sobrenatural, habitado por deidades impalpáveis, amigas dos homens e freqüentemente constrangidas em se adaptar às paixões deles, na qualidade de Fadas, Gnomos, Salamandras, Sílfides, Silfos, Nixos, Ondins e Ondinas: “Desejo falar sobre a lei que concede às Fadas, em casos semelhantes a este, quer dizer, o esgotamento dos lotes de presentes, o poder de dar, conceder ainda mais um, suplementar e extraordinário, desde que ela tenha suficiente imaginação para criá-lo imediatamente.”

Então a boa Fada respondeu com arrogância, digna de seu cargo: “Eu dou ao teu filho... eu lhe dou... o dom de agradar!”

“Mas agradar como? Agradar?... Agradar por quê?”, perguntou obstinadamente o comerciante, que era, sem dúvida, um desses questionadores tão comuns, incapazes de se elevarem e alcançarem a lógica do Absurdo!

“Por quê? Porque sim!”, replicou a Fada furiosa, virando-lhe as costas; e, juntando-se ao cortejo de suas companheiras, lhes dizia: “O que acham vocês desse pequeno francês vaidoso que quer saber tudo e que tendo obtido para o filho o melhor dos prêmios ousa inda questionar e discutir o indiscutível?”

Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

Brinquedo de Pobre

Eu quero dar a idéia de um divertimento inocente. Há tão poucos divertimentos que não tenham algo de culpável!

Quando você sair de manhã com a intenção decidida de vadiar pelas estradas, encha sua bolsa de invenções baratas — tais como, um polichinelo movido à corda, os ferreiros que batem na bigorna, um cavaleiro com seu cavalo cuja cauda é um apito — e, ao longo dos cabarés, ao pé das árvores, faça uma homenagem às crianças desconhecidas e pobres que você encontrar, Você verá os olhos delas se arregalarem desmesuradamente. De início, não ousarão pegar os presentes, duvidarão da própria felicidade. Depois suas mãos agarrarão, rapidamente, o presente e fugirão como fazem os gatos que vão comer longe de você o pedaço que você lhes deu, tendo aprendido a desconfiar dos homens.

Em uma estrada, atrás da cerca de um vasto jardim, ao fim do qual aparecia a brancura de um lindo castelo ensolarado, havia um menino lindo e sadio, vestido com essas roupas do campo e cheio de elegância.

O luxo, o descuido e o espetáculo habitual da riqueza tornam essas crianças tão bonitas que a gente crê que sejam feitas de outra matéria que os filhos da mediocridade e da pobreza.

Ao lado dele, jazia, sobre a relva, um brinquedo esplêndido, tão novo quanto seu dono, envernizado, dourado, vestido com uma roupagem purpurina e coberto de plumas e de vidrilhos. Mas o menino não se ocupava de seu brinquedo preferido e vejam para o que ele olhava: do outro lado da cerca, na estrada, entre os espinhos e as urtigas, havia outro menino, sujo, magro, fuliginoso, uma dessas marmotas-párias, em quem um olho imparcial descobriria beleza, sim, como o olho de um conhecedor adivinha uma pintura ideal sob o verniz de carroceiro e o limpa da repugnante pátina da miséria.

Através dessas barras simbólicas separando os dois mundos, a estrada e o castelo, a criança pobre mostrava à criança rica o seu próprio brinquedo, que esta examinava avidamente como um objeto raro e desconhecido. Ora, tal brinquedo, que o pequeno sujinho irritava, agitava e sacudia dentro de uma gaiola, era um rato vivo! Os pais, por economia, sem dúvida, tinham tirado o brinquedo do dia-a-dia da vida.

E os dois meninos riam, um para o outro, fraternalmente, mostrando os dentes de igual brancura.
 
Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

Convite À Viagem

Existe um país soberbo, um país idílico, dizem, chamado Cocagne que eu sonho visitar com uma velha amiga. País singular, nascido nas brumas de nosso Norte e que poderia se chamar o Oriente do Ocidente, a China da Europa, tanto pela sua calorosa e caprichosa fantasia quanto por ela, paciente e persistentemente ser ilustrada por sábias e delicadas vegetações.

Um verdadeiro país de Cocagne, onde tudo é belo, rico, tranqüilo, honesto; onde o luxo se compraz em se ver em ordem, ou a vida é livre e doce de se respirar; de onde a desordem, a turbulência e o imprevisto são excluídos; onde a bondade está casada com o silêncio; onde a própria cozinha é poética, rica e excitante ao mesmo tempo; onde tudo se parece contigo, meu anjo.

Conheces essa doença febricitante que se apossa de nós nas gélidas misérias, essa nostalgia de um país que ignoramos, essa angústia vinda da curiosidade? É um lugar que se parece contigo, onde tudo é belo, rico, tranqüilo, honesto; onde a fantasia construiu e decorou uma China ocidental, onde a vida é doce de se respirar, onde a felicidade está casada com o silêncio. É lá que se precisa ir viver, é lá que se precisa ir morrer.

Sim, é lá que se precisa ir respirar, sonhar e esticar as horas para o infinito. Um músico escreveu o Convite à Valsa, quem comporá o Convite à friagem, que se possa oferecer à mulher amada ou à irmã preferida?

Sim, é nessa atmosfera que seria bom viver — lá onde as horas mais lentas contêm mais pensamentos, onde os relógios marcam a felicidade com a mais profunda e a mais significativa solenidade.

Sobre as telas brilhantes ou sobre os couros dourados, de sombria riqueza, vivem, discretamente, as pinturas beatas, calmas e profundas como as almas dos arriscas que as criaram, Os sóis poentes que cobrem tão ricamente a sala de jantar ou o sabão são amenizados pelos belos tecidos ou por altas janelas trabalhadas divididas pelas esquadrias de chumbo em numerosos compartimentos, Os móveis são vastos, curiosos, bizarros, armados de fechaduras com segredos, como as almas refinadas. Os metais, os espelhos, os tecidos, a ourivesaria e a faiança tocam para os olhos uma sinfonia muda e misteriosa; e de todas as coisas, de todos os cantos, das frestas das gavetas e das pregas dos tecidos emerge um perfume singular, um retorne de Sumatra, que é como a alma do apartamento.

Um verdadeiro país de Cocagne, digo-te, onde tudo é rico, limpo e luminoso como uma consciência pura, como uma magnífica bateria de cozinha, como urna esplêndida ourivesaria, como uma joalheria multicor! Os tesouros do mundo inteiro afluem, como na casa de um homem trabalhador que bem os merece. País singular, superior aos outros, como a Arte é em relação à Natureza reformada pelo sonho, onde é corrigida, embelezada e refundida.

Que eles procurem, que pesquisem mais, que recuem sem cessar os limites de sua felicidade, estes alquimistas da horticultura! Que proponham o preço de sessenta e de cem florins na solução de seus ambiciosos problemas! Eu encontrei minha tulipa negra e minha dália azul!

Flor incomparável, tulipa reencontrada, dália alegórica, está lá, não é?, nesse belo país tão calmo e tão sonhador que seria preciso ir viver e florescer Não estarias enquadrada em tua analogia e não poderias mirar-te, para falar com os místicos, em tua própria correspondência?

Sonhos! Sempre sonhos! E quanto mais ambiciosa e delicada é a alma, mais os sonhos se afastam do possível. Cada homem leva em si sua dose de ópio natural, incessantemente secretada e renovada, e, do nascimento até a morte, quantas horas temos nós de alegria positiva e de ações bem-sucedidas e decididas? Viveremos nós, por acaso, passaremos nós alguma vez nesse quadro que meu espírito pintou, esse quadro que se parece contigo?

Esses tesouros, esses móveis, esse luxo, essa ordem, esses perfumes, essas flores miraculosas, és tu. Es tu, ainda, esses grandes rios, esses canais tranqüilos. Esses enormes navios que os singram carregados de riquezas e de onde provêm os cantos monótonos das manobras, são estes meus pensamentos que dormem ou rolam sobre teu seio. Tu os conduzes docemente em direção ao mar que é infinito, a refletir as profundezas do céu na limpidez de tua bela alma; e quando, fatigados pelas vagas e saciados dos produtos do Oriente, eles retornam ao porto natal, são ainda meus pensamentos enriquecidos que voltam do infinito para ti.
 
Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

Um Hemisfério em uma Cabeleira

Deixa-me aspirar durante muito tempo, muito tempo, o odor de teus cabelos e mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem com sede na água de uma fonte, e agitá-los com minha mão como um lenço perfumado para dispersar as lembranças no ar.

Se pudesses saber tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que percebo em teus cabelos! Minha alma viaja sobre esse perfume como a alma de outros homens sobre a música.

Teus cabelos contêm todo um sonho, cheio de velas e mastros; eles contêm os grandes mares para onde as monções me levam, os climas charmosos onde o espaço é mais azul e mais profundo; onde a atmosfera é perfumada pelas frutas, pelas folhas e pela pele humana.

No oceano de tua cabeleira entrevejo um porto formigando de cantos melancólicos, de homens vigorosos de todas as nações e de navios de todas as formas recortando suas finas e melancólicas arquiteturas sob um céu imenso onde se espreguiça o eterno calor.

Nas carícias de tua cabeleira reencontro langores das longas horas passadas sobre um divã, no quarto de um belo navio, embalado pelo imperceptível balanço das águas do porto, entre vasos de flores e bebidas refrescantes.

No ardente ninho de tua cabeleira respiro o odor de tabaco misturado ao ópio e ao açúcar; na noite de tua cabeleira vejo o infinito resplendor do azul tropical; sobre as margens cheias de penugem de tua cabeleira embriago-me com os odores de alcatrão, de almíscar e de óleo de coco.

Deixa-me morder, demoradamente, tuas tranças pesadas e negras. Quando mordisco teus cabelos elásticos e rebeldes parece-me que estou comendo lembranças.
 
Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

O Relógio

Os chineses vêem as horas nos olhos dos gatos.

Um dia um missionário, passeando pelos subúrbios de Nanquim, percebeu que tinha esquecido seu relógio e perguntou as horas a um menino.

O garoto do Império Celeste, inicialmente, hesitou depois, reconsiderando, respondeu: “Vou lhe dizer.” E desapareceu. Poucos instantes depois voltou trazendo no colo um grande gato e olhando, como se costuma dizer, no branco dos olhos, afirmou sem hesitar: “Não é ainda meio-dia.” O que era verdade.

Por mim, se me inclinar para a bela Felina, assim tão bem chamada, que é, ao mesmo tempo a honra de seu sexo, o orgulho do meu coração e o perfume do meu espírito, quer seja noite, quer seja dia, em plena luz ou na sombra opaca, no fundo de seus olhos adoráveis, vejo sempre a hora distintamente, sempre a mesma, uma hora vasta, solene, grande como o espaço, sem divisões, nem de minutos, nem de segundos — uma hora imóvel que não é marcada no mostrador dos relógios e, entretanto, leve como um suspiro, rápida como uma olhadela.

E se algum importuno vier me perturbar enquanto meu olhar repousa sobre esse delicioso mostrador, se qualquer gênio desonesto e intolerante, qualquer demônio do contratempo vier me dizer: “O que olhas tu com tanto cuidado? O que procuras nos olhos desse ser? Vês a hora, pródigo e mortal preguiçoso? , eu responderia, sem hesitar: Sim, eu vejo a hora: a Eternidade.”

Não é, madame, que aqui tendes um madrigal verdadeiramente meritório e tão enfático como vós mesma? Na verdade tive tanto prazer em bordar essa pretensiosa galanteria que não vou pedir nada em troca.
 Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

O Bolo

Eu viajava. A paisagem no meio da qual eu estava era de uma grandiosidade e de uma nobreza irresistíveis. Alguma coisa passava-se, sem dúvida, nesse momento em minha alma. Meus pensamentos giravam com uma leveza igual à da atmosfera; as paixões vulgares, tais como a ira e o amor profano, pareciam-me agora tão distantes quanto as nuvens que desfilavam no fundo dos abismos sob meus pés; minha alma parecia tão vasta e tão pura quanto a cúpula do céu que me envolvia; a lembrança das coisas terrestres não chegava a meu coração a não ser atenuada e diminuída como o som dos sininhos de animais imperceptíveis que pastavam ao longe, bem longe, na vertente de uma outra montanha. Sobre o pequeno lago imóvel, negro pela sua imensa profundidade, passava, vez por outra, a sombra de uma nuvem, como o reflexo do capote de um gigante voando através do céu. E me lembro que essa sensação solene e rara, causada por um grande movimento completamente silencioso, enchia-me de alegria misturada com medo. Ou seja, eu me sentia, graças à entusiasmante beleza pela qual estava envolvido, em perfeita paz comigo e com o universo; creio mesmo que, em minha perfeita beatitude e total esquecimento de todo o mal terrestre, acabei por não achar mais ridículos os jornais que pretendem que o homem nasce bom — nisso, como a matéria incurável renovasse suas exigências, sonhei descansar da fadiga e aliviar o apetite causados por uma tão longa ascensão. Tirei de minha bolsa um grande pedaço de pão, uma xícara de couro e um frasco de um certo elixir que os farmacêuticos, naquele tempo, vendiam aos turistas para. na ocasião, misturar com a água da neve.

Estava cortando tranqüilamente o meu pão quando um ruído muito leve fez-me levantar os olhos. Diante de mim encontrava-se um pequeno ser esfarrapado, negro, descabelado, cujos olhos escavados, ferozes e como que suplicantes devoravam o pedaço de pão. Eu o ouvi suspirar em voz baixa e rouca a palavra: bolo! Não pude me impedir de rir, escutando o termo que ele empregava para louvar meu pão quase branco, e eu, então, cortei uma bela fatia e ofereci a ele. Ele aproximou-se, lentamente, sem tirar os olhos do objeto de sua cobiça; depois, agarrando o pedaço com a mão, recuou, rapidamente, como temendo que minha oferta não fosse sincera ou que eu já me tivesse arrependido.

Mas, no mesmo instante, foi derrubado por um outro pequeno selvagem, saído não sei de onde e tão perfeitamente semelhante ao primeiro que se poderia tomá-lo por seu irmão gêmeo. Juntos eles rolaram pelo chão disputando a preciosa presa, nenhum deles querendo, sem dúvida, sacrificar a metade para seu irmão, O primeiro, exasperado, agarrou o segundo pelos cabelos; este, por sua vez, segurou o outro pela orelha com os dentes e cuspiu uma pequena quantidade de sangue com um soberbo xingamento em patoá. O legítimo proprietário do bolo tentou enfiar suas pequenas unhas nos olhos do usurpador; por sua vez este aplicou todas as suas forças para estrangular o adversário com uma das mãos, enquanto com a outra tratava de meter no bolso o prêmio do combate. Mas, reavivado pelo desespero. o vencido voltou a atacar e botou o vencedor por terra com uma cabeçada no estômago. Como descrever uma luta tão feia que durou, na verdade, mais tempo que as forças infantis pareciam prometer? O bolo viajara de mão em mão e mudara de bolsos a cada instante: mas, oh! mudara também de volume; e até que, por fim, extenuados, ofegantes, sangrando, eles pararam por impossibilidade de continuar, pois não havia mais, a bem dizer, nenhum motivo de briga: o pedaço de pão tinha desaparecido, espalhado pelo chão em forma de migalhas semelhantes a grãos de areia, com os quais estava misturado.

Este espetáculo havia-me ensombrecido a paisagem e a calma alegria onde se deleitava minha alma, antes de ver esses pequenos homens, tinha desaparecido totalmente; fiquei triste durante muito tempo, repetindo-me sem cessar: “Existe um soberbo país onde o pão se chama bolo, guloseima tão rara que é suficiente para engendrar uma guerra perfeitamente fratricida!"
 
 Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

As Viúvas

Vauvenargues disse que nos jardins públicos existem aléias freqüentadas, principalmente, pela ambição frustrada, pelos inventores infelizes, pelas glórias abortadas, pelos corações partidos, por rodas as almas tumultuadas e fechadas nas quais ressoam ainda os últimos suspiros de uma tempestade e que recuam para longe do olhar insolente dos felizes e ociosos. Esses recantos sombrios são o ponto de encontro dos estropiados da vida.

É a esses lugares que o poeta e o filósofo gostam de dirigir suas ávidas conjecturas. Há lá um alimento garantido. Se há um lugar que eles desdenham visitar, como insinuei há pouco, é, sobretudo, a alegria dos ricos. Essa turbulência no vazio não tem nada que os atraia. Ao contrário, eles se sentem, irresistivelmente, impelidos para tudo que seja frágil, arruinado, entristecido, órfão.

Um olho experiente não se engana jamais. Em seus traços rígidos ou abatidos, nesses olhos escavados e temos ou brilhantes, fruto dos últimos relâmpagos da luta, nas rugas profundas e numerosas, em suas marchas lentas ou tão freqüentemente tropeçadas, ele decifra logo as inumeráveis lendas de amor enganado, do devotamento desconhecido, dos esforços não recompensados, da fome e do frio, humildemente, silenciosamente suportados.

Alguma vez você já observou as viúvas nesses bancos solitários — as viúvas pobres? Estejam elas de luto ou não, é fácil reconhecê-las. Aliás, há sempre no luto do pobre algo que falta, uma ausência de harmonia que o faz mais desolador. Ele é constrangido a poupar a mostra de sua dor. O rico mostra a sua integralmente.

Qual é a viúva mais triste e mais entristecedora: a que traz um menino pela mão com quem não pode repartir seus devaneios ou a que está totalmente só? Não sei... Aconteceu-me, certa vez, seguir durante longas horas uma velhinha aflita, dessa espécie; era rija, desempenada sob um ralezinho usado, levava em todo o seu ser um orgulho estóico.

Ela estava, evidentemente, condenada, por uma absoluta solidão, aos hábitos de um velho celibatário. E ao caráter masculino de seus costumes juntava-se um picante toque misterioso à sua austeridade. Não sei em que miserável café e de que modo ela almoçara. Eu a segui até o gabinete de leitura, e fiquei espiando, longamente, enquanto ela procurava nos jornais, com os olhos ávidos, antes queimados pelas lágrimas, as novas notícias com interesse possante e pessoal.

Enfim, no começo da tarde — sob um céu charmoso de outono, um desses céus de onde descem, em massa, os arrependimentos e as lembranças —, ela se sentou, à parte, em um jardim para ouvir, longe da multidão, um desses concertos com os quais a música dos regimentos gratifica o povo parisiense.

É, sem dúvida, a pequena orgia dessa velhinha inocente (ou esta velha purificada), o consolo merecido de uma dessas pesadas jornadas sem amigos, sem conversas, sem alegria, sem confidentes, que Deus deixa cair sobre ela, depois de, talvez, muitos anos! Trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.

Não pude jamais me impedir de dar uma olhada, se não universalmente simpática mas, ao menos, curiosa, sobre a multidão de párias que se comprime em torno do círculo de um concerto público. A orquestra lança pela noite os cantos de festa, de triunfo ou de volúpia. As roupas exibem-se brilhantes, os olhares se cruzam; os ociosos, fatigados por nada terem feito, rebolam-se fingindo estar saboreando, indolentemente, a música. Aqui nada mais há que ricos, felizes, nada que não respire e inspire desocupação e o prazer de se deixar viver; nada exceto o aspecto dessa turba que se apóia lá, sobre a cerca exterior, recebendo, de graça, ao sabor do vento, um farrapo da música e olhando sua cintilante fornalha interior.

E sempre uma coisa interessante que se reflete na alegria dos ricos, no fundo do olho do pobre. Mas nesse dia, no meio desse povo vestido de blusas e camisas coloridas, percebi um ser cuja nobreza contrastava gritantemente com toda a trivialidade do ambiente.

Era uma mulher grande, majestosa e de ar tão nobre que não me lembro ter visto igual nem mesmo nas coleções de belezas aristocráticas do passado. Um perfume sublime emanava de toda a sua pessoa. Seu rosto triste e emagrecido estava em perfeita sintonia com o pesado luto que ela usava. Ela, também, como a plebe, com que estava misturada e à qual não percebia, olhava o mundo luminoso com um olhar profundo e ouvia, balanceando levemente a cabeça.

Visão singular! “Com certeza,” dizia-me eu, “esse tipo de pobreza, se é que há pobreza, não pode admitir uma economia sórdida; um semblante tão nobre me garante. Por que então permanece, voluntariamente, em um ambiente onde ela constitui uma mancha tão gritante?”

Mas ao passar com curiosidade por perto dela acreditei ter adivinhado a razão. A grande viúva levava pela mão uma criança vestida de preto, como ela; por mais módico que fosse o preço da entrada, era suficiente para satisfazer os desejos do pequeno ser, melhor ainda, comprar algo supérfluo, um brinquedo.

E ela se retirou a pé, meditando e sonhando; sozinha, sempre sozinha; porque a criança é turbulenta, egoísta, sem doçura, sem paciência e não pode mesmo, como um puro animal, como um cão ou um gato, servir de confidente às dores solitárias.
Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

As Multidões

Não é dado a todo o mundo tomar um banho de multidão: gozar da presença das massas populares é uma arte. E somente ele pode fazer, às expensas do gênero humano, uma festa de vitalidade, a quem urna fada insuflou em seu berço o gosto da fantasia e da máscara, o ódio ao domicílio e a paixão por viagens.

Multidão, solidão: termos iguais e conversíveis pelo poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só no meio de uma multidão ocupadíssima.

O poeta goza desse incomparável privilégio que é o de ser ele mesmo e um outro. Como essas almas errantes que procuram um corpo, ele entra, quando quer, no personagem de qualquer um. Só para ele tudo está vago; e se certos lugares lhe parecem fechados é que, a seu ver, não valem a pena ser visitados.

O passeador solitário e pensativo goza de uma singular embriaguez desta comunhão universal. Aquele que desposa a massa conhece os prazeres febris dos quais serão eternamente privados o egoísta, fechado como um cofre, e o preguiçoso. ensimesmado como um molusco. Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias, todas as misérias que as circunstâncias lhe apresentem.

Isto que os homens denominam amor é bem pequeno, bem restrito, bem frágil comparado a esta inefável orgia, a esta solta prostituição da alma que se dá inteiramente, poesia e caridade, ao imprevisto que se apresenta, ao desconhecido que passa.

É bom ensinar, às vezes, aos felizes deste mundo, pelo menos para humilhar um instante o seu orgulho, que existem bondades superiores às deles, maiores e mais refinadas, Os fundadores de colônias, os pastores de povos, os sacerdotes missionários exilados no fim do mundo conhecem, sem dúvida, alguma coisa dessas misteriosas bebedeiras; e, no seio da vasta família que seu gênio criou, eles devem rir, algumas vezes, dos que se queixam de suas fortunas tão agitadas e de suas vidas tão castas.
 
Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

A Mulher Selvagem e a Pequena Amante

“Francamente, minha querida, você me cansa sem limites e sem piedade; dir-se-ia que, ao ouvi-la suspirar, você sofre mais do que as colhedoras sexagenárias ou as velhas mendigas que juntam as crostas de pão na porta dos cabarés.

“Se, pelo menos, seus suspiros exprimissem remorsos, eles lhe fariam alguma honra; mas eles só traduzem a saciedade do bem-estar e a indolência do repouso. E, depois, você não cessa de repetir-se em palavras inúteis: ‘Ame-me muito! Preciso tanto. Console-me aqui e acarinhe-me ali. Escute, eu quero tentar curá-la, nós acharemos, talvez, um modo por dois tostões, no meio de uma festa e sem ir muito longe.

“Consideremos, eu lhe peço, esta sólida jaula de ferro atrás da qual se agita, gritando como um louco, segurando as barras como um orangotango exasperado pelo exílio, imitando, com perfeição, ora os saltos circulares de um tigre ora os bamboleios estúpidos de um urso branco, esse monstro peludo cujas formas imitam vagamente as suas.

“ Esse monstro é um desses animais a que chamamos geralmente de ‘Meu anjo’, isto é, uma mulher. O outro monstro, o que grita ensurdecedoramente, com um porrete na mão, é um marido. Ele prendeu a mulher legítima como uma fera e a exibe nos subúrbios nos dias de feira, com permissão dos magistrados, é óbvio.
“Atente bem! Veja com que voracidade (talvez não simulada) ela dilacera os coelhos vivos e as galinhas pipiladoras que lhe joga seu domador. ‘Vamos, não precisa comer todo o seu patrimônio num único dia’, e, com estas sábias palavras, arranca-lhe, cruelmente, a presa cujos intestinos desenrolados ficam pendurados nos dentes da besta feroz, da mulher, quero dizer.

“Vamos! Agora umas boas porretadas para acalmar! Pois ela fixa os terríveis olhos cobiçosos sobre a comida retirada. Grande Deus! O porrete não é um pau de comédia, você não ouviu o som das pancadas na carne, apesar dos pêlos postiços? Também, agora, os olhos saltam fora das órbitas, ela urra mais naturalmente. Em seu ódio, ela cintila toda por inteiro, como o ferro batido.

“Tais são os costumes conjugais desses dois descendentes de Adão e Eva, obras de suas mãos, ó Deus! Essa mulher é incontestavelmente infeliz, embora, depois de tudo, os prazeres tiritantes da glória não lhe sejam desconhecidos. Existem infelicidades mais irremediáveis e sem compensação. Mas no mundo onde ela foi jogada jamais pôde crer que a mulher merecesse outro destino.
 “Agora, nós dois, cara preciosa! Ao ver os infernos que povoam o mundo, o que você quer que eu pense de seu inferno bonitinho, você que não repousa senão sobre tão macias almofadas quanto a sua pele, você que só come carne cozida e para quem uma criada hábil cuida de trinchar os pedaços?”

“O que podem significar para mim todos esses pequenos suspiros que enchem seu peito perfumado, robusta coquete? E todas estas afetações aprendidas nos livros e essa infatigável melancolia, feitas para inspirar no espectador nenhum outro sentimento que não seja o de piedade? Em verdade, às vezes tenho vontade de lhe ensinar o que é a verdadeira infelicidade.”

“Ao vê-Ia assim, minha bela delicada, com os pés na lama e os olhos voltados para o céu, como a lhe pedir um rei, dir-se-ia que se tratava de uma jovem rã que invocaria um ideal. Se você despreza o pequeno suporte (o que eu sou no momento, como você bem sabe) cuide do grou que a devorará, engolirá e a matará quando quiser.

“Mesmo sendo eu poeta, não sou um tolo, como você crê, e se você me cansar sempre e muito com suas preciosas choradeiras, eu a tratarei como mulher selvagem, ou a jogarei pela janela como uma garrafa vazia.”

Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

À Uma Hora da Manhã

Enfim, só! Ouve-se apenas o rolar das rodas dos fiacres atrasados e alquebrados. Durante algumas horas nós possuiremos o silêncio, senão o repouso. Enfim a tirania da face humana desapareceu e só sofrerei por mim mesmo.

Enfim! É-me permitido, então, relaxar no banho das trevas. De saída, uma dupla volta na chave aumentará minha solidão e fortificará as barricadas que me separam atualmente do mundo.

Horrível vida! Horrível cidade! Recapitulemos o dia de hoje: ter visto muitos homens de letras, um dos quais me perguntou se se podia ir à Rússia por via terrestre (ele tomava, sem dúvida, a Rússia por uma ilha); ter discutido generosamente, com o diretor de uma revista que a cada objeção respondia: “Aqui é o partido das pessoas honestas”, o que implica que todas as outras publicações são redigidas por patifes; ter saudado umas vinte pessoas, das quais quinze desconhecidas; ter distribuído cumprimentos manuais na mesma proporção e isso sem ter tomado a precaução de comprar luvas; ter subido, para matar o tempo durante uma pancada de chuva, à casa de uma ginasta especialista em saltos, que me pediu que desenhasse um costume de Venustre; ter cortejado um diretor de teatro que me disse despedindo-se de mim: “Você faria melhor se se dirigisse a Z..., é o mais pesado, o mais tolo e mais célebre de todos os meus autores; com ele talvez você pudesse chegar a alguma coisa. Fale com ele, depois nos veremos”; ter me vangloriado (por quê?) de várias ações vis que jamais cometi e ter negado covardemente alguns outros malfeitos que eu cometera com prazer, delito de fanfarronadas, crimes de respeito humano; ter recusado a um amigo um serviço fácil e dado uma recomendação por escrito a um perfeito idiota; ufa! E será que isso acabou?

Descontente de todos os meus descontentamentos e de mim mesmo, gostaria de me recuperar e me orgulhar um pouco no silêncio e na solidão da noite. Almas daqueles que amei, almas daqueles que exaltei, fortificai-me, sustentai-me, afastai de mim a mentira e os vapores corruptores do mundo; e Vós, Senhor meu Deus! acordai em mim a graça de produzir alguns belos versos que provem a mim mesmo que eu não sou o último dos homens, que eu não sou inferior àqueles a quem desprezo.

 Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

O Mau Vidraceiro

Há certas naturezas puramente contemplativas e de todo impróprias à ação, que, entretanto, sob um impulso misterioso e desconhecido, agem às vezes com uma rapidez da qual não acreditavam que fossem capazes.

Tal como alguém que, temendo encontrar com seu porteiro uma novidade triste, perambula, covardemente, diante da porta sem ousar entrar, ou, então, que conserva por quinze dias uma carta sem abrir, ou o que só se resigna, após seis meses, a tomar uma decisão que já era necessária há um ano, se sente, bruscamente, precipitado a agir por uma força irresistível como a flecha em um arco distendido. O moralista e o médico, que pretendem saber tudo, não podem explicar de onde vem tão subitamente uma tão louca energia a essas almas preguiçosas e voluptuosas e, como incapazes de realizar as coisas mais simples e as mais necessárias, acham em certo minuto uma luxuosa coragem para executar os atos mais absurdos e, freqüentemente, mais perigosos.

Um de meus amigos, o mais impulsivo sonhador que já existiu, pôs uma vez fogo em uma floresta para ver, dizia ele, se a fogo alastrava-se tão facilmente coma se afirma geralmente. Dez vezes seguidas a experiência falhou, mas, na décima primeira, resultou um sucesso.

Um outro acendeu um charuto ao lado de um barril de pólvora, “para ver, para saber, para tentar o destino, para se constranger a fazer prova de energia, para bancar a jogador, para conhecer os prazeres da ansiedade, por nada, por capricho, por ociosidade”.

É uma espécie de energia que salta do tédio e do devaneio; e aqueles que têm tais manifestações são, em geral, como eu disse, os mais indolentes e os mais sonhadores dos seres.

Um outro tímido, desses que baixam os olhos diante do olhar dos outros homens, a tal ponto que precisa reunir toda a força de sua pobre vontade para entrar num café ou passar na frente do guichê de um teatro onde os controladores lhe parecem investidos da majestade de Minas, de Éaco e de Radamante, saltará, bruscamente, ao pescoço de um velho que passa a seu lado e o beijará com entusiasmo diante da multidão atônita.

Por quê? Porque... essa fisionomia era-lhe irresistivelmente simpática? Talvez; porém é mais legítimo supor que ele mesmo não saiba por quê.

Eu fui mais de uma vez vítima dessas crises e desses surtos que nos autorizam a crer que demônios maliciosos deslizam em nós e nos fazem executar, sem nosso conhecimento, suas mais absurdas vontades.

Uma manhã levantei-me aborrecido, triste, fatigado de ociosidade, preguiçoso e disposto, parecia-me, a fazer qualquer coisa de grande, uma ação de brilho... e, então, abri a janela!

(Observem, peço-lhes, que o espírito de mistificação que, em algumas pessoas, não é o resultado de um trabalho, de uma combinação, mas de uma inspiração fortuita, participa muito, quanto mais não seja pelo ardor do desejo, desse humor, histérico segundo os médicos, satânico segundo aqueles que pensam um pouco melhor que os médicos, que nos impele, sem resistência, para uma porção de ações perigosas ou inconvenientes.)

A primeira pessoa que percebi na rua foi um vidraceiro, cujo grito agudo, desafinado, subia até mim, atravessando a atmosfera parisiense, pesada e suja. Ser-me-ia, além disso, impossível dizer por que eu tive a atenção chamada para esse pobre homem. Tomei-me de uma raiva tão súbita quanto despótica.

“Hei! Hei!”, gritei, para que subisse. Enquanto eu refletia, não sem alguma alegria, que o quarto ficando no sexto andar e sendo a escada muito estreita, o homem teria algum trabalho na sua ascensão e, certamente, engataria em alguns lugares sua frágil mercadoria.

Enfim ele apareceu e eu lhe disse: “Como, o senhor não tem vidro de cores? Vidros rosas, vermelhos, azuis, vidros mágicos, vidros do paraíso? Impudente é o que o senhor é! E o senhor ousa passear por quarteirões pobres e não tem nem mesmo vidros que façam ver que a vida é bela!” E eu o empurrei em direção à escada, na qual ele tropeçou, resmungando.

Aproximei-me do balcão e tomei um pequeno vaso de flores, e quando o homem reapareceu ao abrir a porta eu deixei cair, perpendicularmente, meu engenho de guerra sobre o rebordo posterior de seus ganchos, e, como o choque o derrubou, ele acabou de quebrar sob seu dorso toda a sua pobre fortuna ambulatória que resultou na fragorosa barulheira de um palácio de cristal destruído por um raio.

E, ébrio de minha loucura, gritei para ele, furiosamente: “A vida é bela! A vida é bela!”

Essas brincadeiras nervosas não são sem perigo e pode-se, às vezes, pagá-las caro. Mas o que importa a eternidade da danação a quem achou em um segundo o infinito da alegria.

 Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

O Quarto Duplo

Um quarto que parece um devaneio, um quarto verdadeiramente espiritual onde a atmosfera estagnante é ligeiramente tingida de rosa e azul.

A alma toma um banho de preguiça, aromatizada pelos pesares e o desejo. É algo de crepuscular, de azulado e de rosado; um sonho de volúpia durante um eclipse.

Os móveis têm as formas alongadas, prostradas, lânguidas. Os móveis têm o ar de que sonham; diríamos dotados de uma vida sonambúlica como um vegetal ou um mineral. Os tecidos falam uma língua muda como as flores, como os céus, como os sóis poentes.

Nas paredes nenhuma abominação artística. Relativamente ao puro sonho, à impressão não analisada, a arte definida, a arte positiva é uma blasfêmia. Aqui tudo tem suficiente clareza e a deliciosa obscuridade da harmonia.

Um aroma infinitesimal da mais original escolha, ao qual se mistura uma levíssima umidade, flutua nessa atmosfera, onde o espírito sonolento é embalado por uma sensação de estufas aquecidas.

A musselina chora abundantemente diante das janelas e diante do leito; ela se derrama em cascatas de neve. Sobre esse leito está deitado o Ídolo, a soberana dos sonhos. Mas como ela está aqui? Quem a trouxe? Que poder mágico instalou-se nesse trono de devaneios e volúpia? Que importa! Ei-la! Eu a reconheço.

São esses olhos cuja flama atravessa o crepúsculo; esses sutis e terríveis olhares que eu reconheço em sua assustadora malícia! Eles atraem, eles subjugam, eles devoram o olhar do imprudente que os contempla. Já estudei muitas vezes essas estrelas negras que comandam a curiosidade e a admiração.

Por qual demônio benevolente devo eu ter sido envolvido assim de mistério, de silêncio, de paz e de perfumes? Ó beatitude! Isso que nós chamamos geralmente de vida, mesmo em sua expansão mais feliz, nada tem de comum com essa vida suprema que, agora, eu conheço e saboreio minuto a minuto, segundo a segundo.

Não! Não há mais minutos, não há mais segundos! O tempo desapareceu; é a Eternidade que reina, uma eternidade de delícias.

Mas uma pancada terrível, fortíssima, ressoou na porta e, como nos sonhos infernais, pareceu-me que recebia um golpe de uma enxada no estômago.

E depois um Espectro entrou. É um oficial de justiça que vem me torturar, em nome da lei; uma infame concubina que vem exibir sua miséria e juntar as trivialidades de sua vida às dores da minha; ou então um jovem secretário de diretor de jornal que vem reclamar a entrega de um manuscrito.

O quarto paradisíaco, o Ídolo, a soberana dos sonhos, a Sílfide, como dizia o grande René, toda aquela magia desapareceu com o golpe disparado pelo Espectro.

Horror! Eu me lembro! Eu me lembro! Sim! Este chiqueiro, este ambiente de eterno desgosto está bem dentro de mim. Vejam os móveis burros, empoeirados, capengas, a lareira sem chamas e sem brasas, suja de escarros, as tristes janelas onde a chuva traçou seus sulcos na poeira; os manuscritos rasurados ou incompletos; o almanaque onde o lápis marcou as datas sinistras!

E esse perfume de um outro mundo, com o qual eu me embriagava com uma sensibilidade aperfeiçoada, ei-lo substituído por fétido odor de tabaco misturado a um mofo nauseabundo. Respira-se aqui, agora, o ranço da desolação.

Nesse mundo estreito, mas tão repleto de desgostos, um único objeto conhecido me sorri: a garrafinha de láudano; uma velha e terrível amiga, como todas as outras. Oh! fecundas em carinho e traições.

Oh! Sim, o Tempo reapareceu, o Tempo reina soberano agora; e com o horroroso velho voltou todo o demoníaco cortejo de Lembranças, de Arrependimentos, de Espasmos, de Medos, de Angústias, de Pesadelos, de Cóleras e de Neuroses.

Eu vos asseguro que os segundos agora são fortemente e solenemente acentuados e cada um saltando do pêndulo diz:
“Eu sou a Vida, a insuportável, a implacável Vida.”

Só há um Segundo na vida humana com a missão de anunciar uma boa nova, a boa nova que causa em cada um de nós um medo inexplicável.

Sim! O Tempo reina, ele retomou sua brutal ditadura. Ele me empurra, como se eu fosse um boi, com seu duplo aguilhão. “Eia Vamos, então, burrico! Sua então, escravo! vive, então, condenado!

 Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

O Cão e o Frasco

- Meu lindo cachorro, meu bom cão, querido totó! Aproxime-se, venha respirar umexcelente perfume comprado na casa do melhor perfumista da cidade.

E o cão, sacudindo a cauda, o que me parece ser, nesses pobres seres, um sinalcorrespondente à gargalhada e ao sorriso, aproxima-se e pousa curiosamente o focinho nofrasco aberto. Mas depois, recuando bruscamente, assustado, late contra mim, à guisa decensura.

- Ah! miserável cão, se eu lhe tivesse oferecido um punhado de excremento, você ofarejaria com delícia e talvez o devorasse. Até você, indigno companheiro de minha vidatriste, se parece com o público, ao qual nunca se devem apresentar perfumes delicados queo exasperem, mas sujeiras cuidadosamente escolhidas.

Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

O Bobo da Corte e a Vênus

Que dia admirável! O vasto parque se desvanece sob o olhar brilhante do sol, como a juventude sob o domínio do Amor.

O êxtase universal das coisas não se exprime por qualquer ruído; até as próprias águas estão coma que adormecidas. Bem diferentes das festas humanas, aqui há uma orgia silenciosa.

Dir-se-ia que uma luz sempre crescente faz cada vez mais cintilar os objetos; que as flores excitadas incendeiam-se do desejo de se rivalizarem com o azul do céu, pela energia de suas cores e que o calor tornando visíveis os perfumes os faz subir ao astro como fumaças.

Entretanto, nessa alegria universal, percebo um ser aflito.

Aos pés de uma Vênus colossal, um desses loucos artificiais, um desses bufões voluntários, encarregados de fazerem rir os reis quando o Remorso ou a Tédio os obcecam, fantasiado com um costume brilhante e ridículo, trazendo urna cabeleira de chifres e guizos, encolhido contra a pedestal, eleva seus olhos lacrimejantes para a Deusa imortal.

E seus olhos dizem: “Eu sou o último e o mais solitário dos homens, privado de amor, de amizade e bem inferior nisso ao mais imperfeito dos animais. Entretanto, sou feito, eu também, para compreender e sentir a imortal Beleza. Ah! Deusa! tenha piedade de minha tristeza e de meu delírio!”

Mas a implacável Vênus olha ao longe para não sei quê, com seus olhos de mármore.

 Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

Cada um com sua Quimera

Sob um grande céu cinzento, uma grande planície empoeirada, sem trilhas, sem gramado, sem um cacto, sem uma urtiga, encontrei alguns homens que caminhavam curvados.

Cada um deles levava às costas uma enorme Quimera, tão pesada quanto um saco de farinha ou de carvão ou os apetrechos de um soldado romano.

Mas a monstruosa besta não era um peso inerte, ao contrário, ela envolvia e oprimia o homem com seus músculos elásticos e potentes; ela agarrava-se ao peito de sua montaria, com suas duas vastas garras e a cabeça fabulosa sobrepunha-se à fronte do homem, como um desses capacetes horríveis com os quais os antigos guerreiros esperavam aumentar o terror dos inimigos.

Questionei um desses homens e perguntei-lhe para onde iam assim, Ele me respondeu que de nada sabia, nem ele nem os outros; mas que, evidentemente, iriam a algum lugar, pois eram impulsionados por uma invencível vontade de andar.

Coisa curiosa de se anotar: nenhum desses viajantes tinha um ar irritado contra a besta feroz pendurada em seu pescoço e colada às suas costas. Dir-se-ia que as consideravam como fazendo parte deles mesmos.

Todas essas faces fatigadas e sérias não testemunhavam qualquer desespero; sob a cúpula ente- diante do céu, os pés afundados na poeira de um chão também tão desolado quanto este céu, eles caminhavam com a fisionomia resignada dos que são condenados a esperar sempre.

E o cortejo passou a meu lado e se afundou na atmosfera do horizonte, no local onde a superfície arredondada do planeta se furta à curiosidade do olhar humano.

E durante alguns instantes eu me obstinava em querer compreender este mistério, mas logo uma irresistível indiferença se abateu sobre mim e eu fiquei mais pesadamente oprimido do que eles próprios por suas esmagadoras Quimeras.

 Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

Confissão de Artista

Como são penetrantes as tardes de outono! Penetrantes até à dor! Há certas sensações deliciosas em que o vazio não exclui a intensidade. E não há ponta mais acerada que a do infinito.

Grande delícia, mergulhar os olhos na imensidão do céu e do mar! Solidão, silêncio, incomparável castidade do azul! Pequena vela a tremular no horizonte, cuja fraqueza e isolamento imitam minha irremediável existência. Melodia monótona das ondas. Todas essas coisas pensam por mim, ou eu penso por todas: na grandeza do sonho, o eu logo se perde! Pensam, repito, mas musical e pinturescamente, sem argúcias, sem silogismos, sem deduções.

Todavia, esses pensamentos, que partem de mim ou se precipitam das coisas, logo se tornam demasiado intensos. A energia na volúpia cria uma inquietude e um sofrimento positivos. Meus nervos, tensos demais, dão apenas vibrações agudas e dolorosas.

E agora a profundeza do céu me consterna; exaspera-me a sua limpidez. Revoltam-me a insensibilidade do mar, a imutabilidade do espetáculo... Ah! Será preciso sofrer eternamente, ou evitar eternamente o belo? Natureza, impiedosa feiticeira, rival sempre vitoriosa, deixa-me! Não tentes os meus desejos e o meu orgulho! A contemplação do belo é um combate em que o artista grita de pavor antes de ser vencido.

Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

O Desespero da Velhinha

A velhinha recurvada alegrou-se ao ver no berço a criancinha a quem todos festejavam e agradavam; esse lindo ser tão frágil quanto ela e como ela, também, sem dentes e sem cabelos.

Aproximou-se do bebê querendo fazer graças com risinhos e caretas agradáveis.

Mas a criança, espantada, debateu-se sob os carinhos da boa senhora decrépita e encheu a casa com seus gritos agudos.

Então a boa velhinha retirou-se a sua solidão eterna e chorou num canto dizendo para si: “Ah! Para nós, infelizes mulheres velhas, a idade impede de transmitir alegria mesmo aos inocentes; nós causamos horror às criancinhas a quem nós queremos mostrar amor.”

Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

O Estrangeiro

— A quem mais amas tu, homem enigmático, dizei: teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?
— Eu não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
— Teus amigos?
— Você se serve de uma palavra cujo sentido me é, até hoje, desconhecido.
— Tua pátria?
— Ignoro em qual latitude ela esteja situada.
— A beleza?
— Eu a amaria de bom grado, deusa e imortal.
— O ouro?
— Eu o detesto como vocês detestam Deus.
— Quem é então que tu amas, extraordinário estrangeiro?
— Eu amo as nuvens.., as nuvens que passam lá longe...
as maravilhosas nuvens!

Charles Baudelaire - Pequenos Poemas em Prosa

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Obsessão

Os bosques para mim são como catedraes,
Com organs a ulular, incutindo pavor...
E os nossos corações, - jazidas sepulcraes,
De profundis também soluçam, n'um clamor.

Odeio do oceano as iras e os tumultos,
Que retratam minh'alma! O riso singular
E o amargo do infeliz, misto de pranto e insultos,
É um riso semelhante ao do soturno mar.
Ai! como eu te amaria, ó Noite, caso tu
Pudesses alijar a luz que te constéia,
Porque eu procuro o Nada , o Tenebroso, o Nu!

Que a própria escuridão é tambem uma téia,
Onde vejo fulgir, na luz dos meus olhares.
Os entes que perdi, - espectros familiares!