A LEITURA ENGRANDECE A ALMA

"A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede." (Carlos Drummond de Andrade)
Mostrando postagens com marcador Cruz e Souza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cruz e Souza. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Doce Abismo

Coração, coração! a suavidade, 
Toda a doçura do teu nome santo 
É como um cálix de falerno e pranto, 
De sangue, de luar e de saudade. 

Como um beijo de mágoa e de ansiedade, 
Como um terno crepúsculo d'encanto, 
Como uma sombra de celeste manto, 
Um soluço subindo a Eternidade. 

Como um sudário de Jesus magoado, 
Lividamente morto, desolado, 
Nas auréolas das flores da amargura. 

Coração, coração! onda chorosa, 
Sinfonia gemente, dolorosa, 
Acerba e melancólica doçura. 

Cruz e Souza

Música Misteriosa

Tenda de Estrelas níveas, refulgentes, 
Que abris a doce luz de alampadários, 
As harmonias dos Estradivarius 
Erram da Lua nos clarões dormentes... 

Pelos raios fluídicos, diluentes 
Dos Astros, pelos trêmulos velários, 
Cantam Sonhos de místicos templários, 
De ermitões e de ascetas reverentes... 

Cânticos vagos, infinitos, aéreos 
Fluir parecem dos Azuis etéreos, 
Dentre os nevoeiros do luar fluindo... 

E vai, de Estrela a Estrela, a luz da Lua, 
Na láctea claridade que flutua, 
A surdina das lágrimas subindo... 

Cruz e Souza

sábado, 21 de janeiro de 2012

Imortal Falerno

Quando as Esferas da Ilusão transponho 
Vejo sempre tu'alma - essa galera 
Feita das rosas brancas da Quimera, 
Sempre a vagar no estranho mar do Sonho. 

Nem aspecto nublado nem tristonho! 
Sempre uma doce e constelada Esfera, 
Sempre uma voz clamando: - espera, espera, 
Lá do fundo de um céu sempre risonho. 

Sempre uma voz dos Ermos, das Distâncias! 
Sempre as longínquas, mágicas fragrâncias 
De uma voz imortal, divina,pura... 

E tua boca, Sonhador eterno, 
Sempre sequiosa desse azul falerno 
Da Esperança do céu que te procura! 

Cruz e Souza

Triste

Vai-se extinguindo a viva labareda 
Que te abrasava o coração ridente... 
Passas magoada pela rua e a gente 
Umas converses funerais segreda. 

Não tens no olhar o sangue q'embebeda, 
Foram-se as rosas do viver contente... 
Segues, agora, pobre flor -- somente 
Da sepultura a essencial vereda. 

E vem chegando o tenebroso inverno... 
Mas nesse mal devorador e eterno, 
Teu organismo já não mais resiste 

Às punhaladas da estação de gelo... 
E acabará como eu nem sei dizê-lo, 
Triste, bem triste, pesarosa, triste! 

Cruz e Souza

sábado, 10 de dezembro de 2011

O Anjo da Redenção

Soberbo, branco, etereamente puro,
Na mão de neve um grande facho aceso,
Nas nevroses astrais dos sóis surpreso,
Das trevas deslumbrando o caos escuro.

Portas de bronze e pedra, o horrendo muro
Da masmorra mortal onde estás preso
Desce, penetra o Arcanjo branco, ileso
Do ódio bifronte, torso, torvo e duro.

Maravilhas nos olhos e prodígios
Nos olhos, chega dos azuis litígios
Desce à tua caverna de bandido.

E sereno, agitando o estranho facho,
Põe-te aos pés e a cabeça, de alto a baixo,
Auréolas imortais de Redimido!

O Mar

Que nostalgia vem das tuas vagas,
Ó velho mar, ó lutador Oceano!
Tu de saudades íntimas alagas
O mais profundo coração humano.

Sim! Do teu choro enorme e soberano,
Do teu gemer nas desoladas plagas
Sai o quer que é, rude sultão ufano,
Que abre nos peitos verdadeiras chagas.

Ó mar! ó mar! embora esse eletrismo,
Tu tens em ti o gérmen do lirismo,
És um poeta lírico demais.

E eu para rir com humor das tuas
Nevroses colossais, bastam-me as luas
Quando fazem luzir os seus metais...

Ocasos

Morrem no Azul saudades infinitas
Mistérios e segredos inefáveis...
Ah! Vagas ilusões imponderáveis,
Esperanças acerbas e benditas.

Ânsias das horas místicas e aflitas,
De horas amargas das intermináveis
Cogitações e agruras insondáveis
De febres tredas, trágicas, malditas.

Cogitações de horas de assombro e espanto
Quando das almas num relevo santo
Fulgem de outrora os sonhos apagados.

E os bracos brancos e tentaculosos
Da Morte, frios, álgidos, nervosos,
Abrem-se pare mim torporizados.

Êxtase

Quando vens para mim, abrindo os braços
Numa carícia lânguida e quebrada,
Sinto o esplendor de cantos de alvorada
Na amorosa fremência dos teus passos.

Partindo os duros e terrestres laços,
A alma tonta, em delírio, alvoroçada,
Sobe dos astros a radiosa escada
Atravessando a curva dos espaços.

Vens, enquanto que eu, perplexo d’espanto,
Mal te posso abraçar, gozar-te o encanto
Dos seios, dentre esses rendados folhos.

Nem um beijo te dou! abstrato e mudo
Diante de ti, sinto-te, absorto em tudo,
Uns rumores de pássaros nos olhos.

Exilada

Bela viajante dos países frios
Não te seduzam nunca estes aspectos
Destas paisagens tropicais -- secretos,
— Os teus receios devem ser sombrios.

És branca e és loura e tens os amavios
Os incógnitos filtros prediletos
Que podem produzir ondas de afetos
Nos mais sensíveis corações doentios.

Loura Visão, Ofélia desmaiada,
Deixa esta febre de ouro, a febre ansiada
Que nos venenos deste sol consiste.

Emigra destes cálidos países,
Foge de amargas, fundas cicatrizes,
Das alucinações de um vinho triste...

Frêmitos

I
Ó pombas luminosas
Que passais neste mundo eternamente
Só a cantar os madrigais de rosas,
Atravessados de um luar veemente,
Inundados de estrelas e esplendores,
De carinhos, de bênçãos e de amores.

II
Ó virgens peregrinas,
De meigo olhar banhado de esperanças,
Que perfumais com lírios e boninas
A aurora de cristal das louras tranças,
Que atravessais constantemente a vida
Do sol eterno, da visão florida.

III
Amadas e felizes
Gêmeas da luz das frescas alvoradas,
Vós que trazeis nas almas as raízes
Do que é são, do que é puro -- ó vós amadas
Prendas gentis do paternal tesouro,
Iriados corações de fluidos de ouro.

IV
É para vós que eu quero
Engrinaldar de tropos e de rimas,
Num doce verso artístico e sincero,
Esgrimir com belíssimas esgrimas
A estrofe e dar-lhe os golpes mais seguros
Para que brilhe como uns astros puros.

V
É só a vós, apenas,
Que eu me dirijo, límpidas auroras,
Que pelas tardes plácidas, serenas,
Passais, galantes como ingênuas Floras,
Coroadas de flor de laranjeira,
Noivas, sorrindo à mocidade inteira.

VI
Porque é de vós que deve,
De vós que o sonho eterno dulcifica,
Partir o lume quando cai a neve,
Surgir a crença poderosa e rica.
Porque afinal, o que se chama crença,
Senão o amor e a caridade imensa?

VII
Os tristes e os pequenos
Em quem descansam brandamente os olhos,
Esses humildes, rotos Nazarenos
Que vivem, morrem suportando abrolhos,
Senão nos grandes entes piedosos
Que dão-lhes força aos transes dolorosos?

VIII
Oh, sim que a força eterna
Parte dos corpos rijos da saúde,
Perante a lei da vida que governa,
O nobre, o rei, o proletário rude;
Parte dos seres fartos de carinhos
Como de paz e de alegria os ninhos.

IX
Eu peço para todos
E peço a vós que sois as fortalezas
Da esperança, da fé — a vós que os lodos
Da miséria, do vício, das baixezas,
Não denegriram essas consciências
Castas e brancas como as inocências.

X
Nem se esperar devia
Que eu tentasse bater a outras portas,
Quando vós sois o exemplo de Maria;
Não andais mudas, regeladas, mortas
Pela noite voraz da sepultura
E escutareis os dramas da amargura.

XI
Não julgueis que eu vos peça,
Uma alvorada feita de um sorriso;
A minh'alma garante e vos confessa
Que se crê nas mansões do Paraíso,
É porque vós reinais por sobre a terra
E o Paraíso dentro em vós se encerra.

XII
A vós, a vós compete
A glória do dever — porque assim como
A luz do sol na lua se reflete,
Também das aflições no duro assomo,
Da pobreza refletem-se nas almas,
Vossas imagens, como auroras calmas.

XIII
Portanto, a mocidade
Vossa, terá de ser de hoje em diante,
Enquanto a esmagadora atrocidade
Da peste — nos vorar d’instante a instante,
Quem se há-de encarregar desta manobra
Do galeão da vida que sossobra.

XIV
E para isso, ó rainhas
Da juventude — tendes as quermesses
Que dão bons frutos assim como as vinhas;
As matinées de cânticos e preces,
Os cintilantes, pródigos bazares
Onde a luz salta extravasando em mares.

XV
Enquanto a mim, na arena
Da heroicidade humana que consola,
Oh, faz-me bem a vibração da pena,
Pelo amor, pelo afago, pela esmola,
Como um radiante e fulgido estilhaço
De sol febril no mármore do Espaço!

Fonte de Amor

Trago-a à tua presença
Para que vejas a imensa
Mágoa atroz que a devorou.

E saibas, ó flor das flores,
Que a fonte dos seus amores
Eternamente secou.

Foste à fonte buscar água
E tinha secado a fonte.
Aí, flor azul do monte,
Tiveste a primeira mágoa.

Porém se uma alma na frágua
Das dores sem horizonte
Queres ver, sentir defronte
Dos olhos, manda que eu trago-a.

Frutas e Flores

Laranjas e morangos — quanto às frutas,
Quanto às flores, porém, ah! quanto às flores,
Trago-te dálias rubras, d'essas cores
Das brilhantes auroras impolutas.

Venho de ouvir as misteriosas lutas
Do mar chorando lágrimas de amores;
Isto é, venho de estar entre os verdores
De um sítio cheio de asperezas brutas,

Mas onde as almas — pássaros que voam —
Vivem sorrindo às músicas que ecoam
Dos campos livres na rural pobreza.

Trago-te frutas, flores, só apenas,
Porque não pude, irmã das açucenas,
Trazer-te o mar e toda a natureza!

Plenilúnio

Vês este céu tão límpido e constelado
E este luar que em fúlgida cascata,
Cai, rola, cai, nuns borbotões de prata...
Vês este céu de mármore azulado...

Vês este campo intérmino, encharcado
Da luz que a lua aos páramos desata...
Vês este véu que branco se dilata
Pelo verdor do campo iluminado...

Vês estes rios, tão fosforescentes,
Cheios duns tons, duns prismas reluzentes,
Vês estes rios cheios de ardentias...

Vês esta mole e transparente gaze...
Pois é, como isso me parecem quase
Iguais, assim, às nossas alegrias!

Quando eu te vi pela primeira vez no palco

Tu passas rutilante em toda a parse
Oh! sol de nossa pátria, oh! sol da arte!...
(Virgílio Várzea)


Quando eu te vi pela primeira vez no palco
 Avassalando as almas,
 N'um referver de palmas,
Cheia de vida e cândido lirismo!
Senti na mente uns divinais tremores...
 E louco e louco,
 A pouco e pouco
Vi rebentar o inferno cataclismo!...

Mil pensamentos galoparam, céleres
 Por minha fronte
 E do horizonte
Quis arrancar os astros diamantinos,
Para arrojá-los a teus pés mimosos
 E arrebatado,
 Fanatizado
Por entre um mar de cintilantes hinos!...

Esse teu busto, a genial cabeça
 Tão bem talhada
 E burilada
Com o escopro límpido da arte,
Tem umas puras fulgurações suaves
 E a tu'alma
 Ardente ou calma
Os corações arrasta por toda a parte!...

A encarnação tu és das maravilhas,
 A doce aurora,
 Branda e sonora
Das teatrais e lucidas idéias!...
Tens no olhar o filtro que arrebata
 E és profética
 E magnética,
Possuis na voz o som das melopéias!...

És a escolhida pare as grandes lutes
 Esplendorosas
 E majestosas!...
E sobre os débeis, delicados ombros,
Bem como Homero a sua lira d'ouro,
 Resplandecente,
 Trazes pendente
O Infinito enorme dos assombros!...

Quando apareces tudo ri e chore,
 Se endeusa, agita,
 Como que palpita
N'uma explosão de férvidos louvores!.
E o potentado mais febril da terra
 Gagueja um bravo,
 E faz-se escravo
O mais severo e nobre dos senhores!...

A Dejaset, uma Favart, Rachel,
 O João Caetano
 Como um arcano
Imperscrutável, hórrido, terrível!...
Quebram as louças sepulcrais e frias
 E te louvando
 Vão reinando...
Dizem que é sonho, é mito, é impossível!

Oh! tu nasceste para suplantar, JULIETA
 Os grandes mundos,
 Os mais profundos
D'ess'arte bela, magistral, divina!...
E esse olhar tão expressivo e terno
 Já eletriza
 E cauteriza...
É como um raio que a corações fulmina!...

Que sol é este, vão bradando os pólos,
 Tão sobranceiro,
 Que o brasileiro
O vasto império confundindo está?!...
Venham teólogos, venham sábios... todos
 Venham troianos,
 Venham germanos,
Venham os vultos da Caldéia, lá!...

Oh! resolvei o mais atroz problema,
 Fundo mistério,
 Alto, sidério
Do gênio altivo na criança, ali!...
Vamos, natura, rasga o véu dos medos,
 Dizei ó mares,
 Falai luares,
Sombras dos bosques, respondei-me aqui!...

Astros da noite, tempestades, ventos
 Erguei as vozes,
 Falai velozes
N’um som estranho, n’um clangor audaz!...
E respondei-me e explicai ao orbe
 Se essa menina,
 Que nos fascina
É um fenômeno ou outro tanto mais!...

Tudo emudece na natura imensa
 E desde os Andes,
 Dos cedros grandes
Ao verme, à pedra, às amplidões do mar!...
Tudo se oculta na invisível raia
 No espaço a bruma,
 No mar a espuma
Vão-se esgarçando também, a se ocultar!...

Tudo emudece na natura imensa
 Quando na cena
 Surges serena
Como a visão das noites infantis!
Dos olhos vivos dos que são teus adeptos
 Bem como prata
 Eis se desata
A aluvião de lágrimas febris!...

É que tu tens esse poder superno
 Real, sublime
 Que até ao crime
Faz arrastar o mísero mortal!
É que tu és a embrionária horrível,
 Mística, ingente
 Que de repente
Fazes de um ser estúpido animal!...

Tudo emudece na natura imensa
 Desde nos campos
 Os pirilampos
Até as grimpas colossais do céu!...
Tudo emudece e até eu JULIETA,
 Já delirante
 Vou vacilante
Cair-te aos pés como um servil, um réu!!...

 [à Julieta dos Santos]

Quando eu partir

Quando eu partir, que eterna e que infinita
Há de crescer-me a dor de tu ficares;
Quanto pesar e mesmo que pesares,
Que comoção dentro desta alma aflita.

Por nossa vida toda sol, bonita,
Que sentimento, grande como os mares,
Que sombra e luto pelos teus olhares
Onde o carinho mais feliz palpita...

Nesse teu rosto da maior bondade
Quanta saudade mais, que atroz saudade...
Quanta tristeza por nós ambos, quanta,

Quando eu tiver já de uma vez partido,
Ó meu amor, ó meu muito querido
Amor, meu bem, meu tudo, ó minha santa!

Inverno

Amanheceu — no topo da colina
Um céu de madrepérola se arqueia
Limpo, lavado, reluzindo — ondeia
O perfume da selva esmeraldina.

Uma luz virginal e cristalina,
Como de um rio a transbordante cheia,
Alaga as terras culturais e arreia
De pingos d'ouro os verdes da campina.

Um sol pagão, de um louro gema d'ovo,
Já tão antigo e quase sempre novo
Surge na frígida estação do inverno.

— Chilreiam muito em árvores frondosas
Pássaros — fulge o orvalho pelas rosas
Como o vigor no espírito moderno.

Lágrimas da aurora, poemas cristalinos

Lágrimas da aurora, poemas cristalinos
Que rebentais das cobras do mistério!
Aves azuis do manto auri-sidério...
Raios de luz, fantásticos, divinos!...

Astros diáfanos, brandos, opalmos,
Brancas cecens do Paraíso etéreo,
Canto da tarde, límpido, aéreo,
Harpa ideal, dos encantados hinos!...

Brisas suaves, virações amenas,
Lírios do vale, roseirais do lago,
Bandos errantes de sutis falenas!...

Vinde do arcano n’um potente afago
Louvar o Gênio das mansões serenas,
Esse Prodígio singular e mago!!...

Da Lua aos raios prateados

Da Lua aos raios prateados
Que no horizonte se espargem,
Como fulguram os prados
Da lua aos raios prateados,
Há vagos silfos alados
Do rio azul pela margem
Da lua aos raios prateados
Que no horizonte se espargem.

Saudação

Ao Liceu de Artes e Ofícios


Como esta luz é serena,
Como esta luz é sincera;
Como eu vejo a primavera
Num lápis e numa pena.

Que prismas de luz ardente,
Que prismas de luz suave;
Como eu sinto um canto de ave
Em cada boca inocente.

Sim! Que o estudo é como a aurora
Que nos entra pela casa,
Num vivo fulgor de brasa,
Vibrante, alegre, sonora.

Ele rasga a treva espessa,
Num só momento — cantando;
Vai estrelas semeando
Em cada tenra cabeça.

Tira os crânios do letargo
Da ignorância — pois entra
Como um sol e se concentra
Num esplendor muito largo.

Quem, ó Arte imaculada,
Medisse o ser da criança,
Pela alma de uma esperança
Pela alma de uma alvorada.

Quem aos páramos subindo,
Eternamente pudesse,
Dos astros a loura messe
Arrancar — depois abrindo

Os peitos das criancinhas
Jogá-los dentro e beijá-las
Cheias de pompa e das galas
Que a luz concede às rainhas!...

Pois que a treva entre fulgores,
É como, dentre ataúdes,
Rebentar como virtudes,
As mais simpáticas flores.

Ah! Ninguém sabe, por certo,
Quanto é bom, quanto é saudável,
Sentir a crença adorável
Como um clarão sempre aberto.

Ver os germens do futuro
No campo eterno da escola
Brilhando como a corola
De um lírio cândido e puro.

Ver morrer — como uns invernos
Da vida, os velhos colossos
E ver erguerem-se os moços
Como verões sempiternos.

Mães, ó mães tão estremosas,
Dos vossos ventres fecundos
Saem todos esses mundos
Das idéias fulgurosas.

Tudo isso quanto há escrito
De pensamento e crenças
Saiu das fontes imensas
De um grande amor infinito.

E desde a escrita a leitura
E desde um livro a uma carta,
A bondade sempre farta
Das mães — esplende e fulgura.

Bom dia ao mestre que é guia
Das belas crianças louras!
Bom dia às mães porvindouras,
À mocidade — Bom dia!

Colar de Pérolas

Ao feliz consórcio dos estimáveis colegas, D. Jesuína Leal e Francisco de Castro.


A F’licidade é um colar de pérolas,
Pérolas caras, de valor pujante,
Belas estrofes de Petrarca e Dante
Mais cintilantes que as manhãs mais cérulas.

Para que enfim esse colar bendito,
Perdure sempre, inteiramente egrégio,
Como uma tela do pintor Correggio,
Sem resvalar no lodaçal maldito:

Faz-se preciso umas paixões bem retas,
Cheias de uns tons de muito sol — completas...
Faz-se preciso que do amor na febre,

Nos grandes lances de vigor preclaro,
Desse colar esplendoroso e raro,
Nem uma pérola, uma só se quebre!...