A LEITURA ENGRANDECE A ALMA

"A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede." (Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Sabedoria I, III

Que dizes, viajante, de estações, países? 
Colheste ao menos tédio, já que está maduro, 
Tu, que vejo a fumar charutos infelizes, 
Projetando uma sombra absurda contra o muro? 

Também o olhar está morto desde as aventuras, 
Tens sempre a mesma cara e teu luto é igual: 
Como através dos mastros se vislumbra a lua, 
Como o antigo mar sob o mais jovem sol, 

Ou como um cemitério de túmulos recentes. 
Mas fala-nos, vá lá, de histórias pressentidas, 
Dessas desilusões choradas plas correntes, 
Dos nojos como insípidos recém-nascidos. 

Fala da luz de gás, das mulheres, do infinito 
Horror do mal, do feio em todos os caminhos 
E fala-nos do Amor e também da Política 
Com o sangue desonrado em mãos sujas de tinta. 

E sobretudo não te esqueças de ti mesmo, 
Arrastando a fraqueza e a simplicidade 
Em lugares onde há lutas e amores, a esmo, 
De maneira tão triste e louca, na verdade! 

Foi já bem castigada essa inocência grave? 
Que achas? É duro o homem; e a mulher? E os choros, 
Quem os bebeu? E que alma capaz de os contar 
Consola isso a que podes chamar tuas dores? 

Ah, os outros, ah, tu! Crendo em vãos lisonjeios, 
Tu que sonhavas (e era também demasiado) 
Com uma qualquer morte suave e ligeira! 
Ah, tu, que espécie de anjo sempre amedrontado! 

Mas que intenções, que planos? Terás energia 
Ou o choro destemperou esse teu coração? 
A julgar pela casca, é uma árvore macia 
E os teus ares não parecem de vencedor, não. 

Tão desastrado ainda! e com a agravante inútil 
De seres cada vez mais um sonolento idílico 
A fitar pla janela o céu sempre tão estúpido 
Sob o astuto olhar do diabo do meio-dia. 

Sempre o mesmo na tua extrema decadência! 
Ah! — Mas no teu lugar, e assumindo as culpas, 
Um ser sensato quer impor outra cadência 
Com o risco de alarmar um pouco os transeuntes. 

Não terás, vasculhando os recantos da alma, 
Um vício pra mostrar, qual sabre à luz do dia, 
Algum vício risonho, descarado, que arda 
E vibre, dardejante, sob o céu carmim? 

Um ou mais? Se os tiveres, será melhor! E parte 
Prà guerra e briga a torto e a direito, sem 
Escolher ninguém e enverga a indolente máscara 
Do ódio insaciado, mas farto também... 

Não devemos ser tansos neste alegre mundo 
Onde a felicidade não é saborosa 
Se nela não vibrar algo perverso, imundo, 
E quem não quer ser tanso tem de ser maldoso. 

— Sabedoria humana, eu ligo a outras coisas 
E, de entre esse passado de que descrevias 
O tédio, em conselhos ainda mais penosos, 
Só consigo lembrar-me, hoje, do mal que fiz. 

Em todos os estranhos passos desta vida, 
Dos lugares e dos tempos, ou também dos meus 
«Azares», de mim, dos outros, da estrada seguida, 
Sempre retive apenas a graça de Deus. 

Se me sinto punido, é porque o devo ser. 
O homem e a mulher não estão aqui em vão. 
Mas espero que um dia possa conhecer 
O perdão e a paz que aguardam os cristãos. 

É bom não sermos tansos neste mundo efémero, 
Mas pra que o não sejamos na eternidade, 
O que é mais necessário que reine e governe 
Nunca é a maldade, mas sim a bondade. 

Paul Verlaine, in "Sabedoria" 
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

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