A LEITURA ENGRANDECE A ALMA

"A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede." (Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Os Sinos

1 

Os sinos tocam a noivado, 
No Ar lavado! 
Os sinos tocam, no Ar lavado, 
A noivado! 

Que linda criança que assoma na rua! 
Que linda, a andar! 
Em extasi, o povo commenta que é a Lua, 
Que vem a andar... 

Tambem, algum dia, o povo na rua, 
Quando eu cazar, 
Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua 
Que vae cazar... 

2 

E o sino toca a baptizado 
Que lindo fado? 
E o sino toca um lindo fado, 
A baptizado! 

E banham o anjinho na agoa de neve, 
Para o lavar, 
E banham o anjinho na agoa de neve, 
Para o sujar. 

Ó boa madrinha, que o enxugas de leve, 
Tem dó d'esses gritos! Comprehende esses ais: 
Antes o enxugue a Velha! antes Deus t'o leve! 
Não soffre mais... 

3 

Os sinos dobram por anjinho, 
Coitadinho! 
Os sinos dobram, coitadinho... 
Pelo anjinho! 

Que aceiada que vae p'ra cova! 
Olhae! olhae! 
Sapatinhos de sola nova, 
Olhae! olhae! 

Ó lindos sapatos de solinha nova, 
Bailae! bailae! 
Nas eiras que rodam debaixo da cova... 
Bailae! bailae! 

4 

O sino toca p'ra novena, 
Gratiae plena, 
E o sino toca, gratiae plena, 
P'ra novena. 

Ide, meninas, á ladainha, 
Ide rezar! 
Pensae nas almas como a minha... 
Ide rezar! 

Se, um dia, me deres alguma filhinha, 
Ó Mãe dos Afflictos! ella ha-de ir, tambem: 
Ha-de ir ás novenas, assim, á tardinha, 
Com sua mãe... 

5 

E o sino chama ao Senhor-fóra, 
A esta hora! 
Os sinos clamam, a esta hora, 
Ao Senhor-fóra! 

Accendei, vizinhos, as velas, 
Allumiae! 
Velas de cera nas janellas! 
Allumiae! 

E luas e estrellas tambem poem velas, 
A allumiar! 
E a alminha, a esta hora, já está entre ellas, 
A allumiar... 

6 

E os sinos dobram a defuntos, 
Todos juntos! 
E os sinos dobram, todos juntos, 
A defuntos! 

Que triste ver amortalhados! 
Senhor! Senhor! 
Que triste ver olhos fechados! 
Senhor! Senhor! 

Que pena me fazem os amortalhados, 
Vestidos de preto, deitados de costas... 
E de olhos fechados! e de olhos fechados! 
E de mãos postas! 

E os sinos dobram a defuntos, 
Dlin! dlang! dling! dlong! 
E os sinos dobram, todos juntos, 
Dlong! dlin! dling! dlong 

António Nobre, in 'Só'

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