A LEITURA ENGRANDECE A ALMA

"A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede." (Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Biografia de Arthur Rimbaud


Arthur Rimbaud

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (20 de outubro de 1854, Charleville - 10 de novembro de 1891, Marselha) foi um poeta francês.

Na maioria das vezes, a história de Rimbaud é apresentada como principal ponto de partida para a leitura de sua obra, o que torna quase impossível olhar a obra de Rimbaud com olhos livres.

O Rimbaud que partiu para traficar armas de fogo no norte da África de um lado e deu cor às vogais (revista em Alquimia do Verbo) por outro, tornou-se um tipo de referência para a poesia no século seguinte: servindo como argumento à tese que nascia sobre a impossibilidade de ser considerada a dissociação entre o poeta e sua poesia. O poeta, assim, vive e é sua poesia - pensamento em voga ainda hoje segundo algumas escolas.

O norte-americano Henry Miller, um dos grandes admiradores da poesia simbolista de Rimbaud, diz, diante disso, que o tipo Rimbaud chegará a superar tipos clássicos de comportamento; como o introspectivo e inquieto jovem estampado pelo personagem Hamlet, de Shakespeare. "Acho que existem muitos Rimbauds neste mundo e que seu número aumentará com o tempo. Acho que o tipo Rimbaud tomará o lugar, nos próximos tempos, do tipo Hamlet e do tipo Fausto. Até que o velho mundo morra de vez, o indivíduo 'anormal' será cada vez mais a norma. O novo homem se encontrará quando a guerra e a coletividade entre o indivíduo cessar. Veremos então o tipo de homem em sua plenitude e esplendor".

Já Paulo Leminski escreveu no curtíssimo ensaio "Poeta Roqueiro" que "se vivesse hoje, Rimbaud seria músico de rock" e que Rimbaud "pasmou os contemporâneos com uma precocidade poética - (escrevendo) obras-primas entre os 15 e os 18 anos". Georges Duhamel vai pela mesma picada: "O que Mallarmé não parece ter adivinhado é que o 'Viajante notável' voltaria, que ia ficar, que não pararia de crescer, que sua influência se estenderia sobre todas as gerações e que aquele garoto seria no século novo não o mestre, e sim, melhor ainda, o mensageiro, o profeta de toda uma juventude febril, entusiasta, rebelde". A imagem mais conhecida de Rimbaud, esta mesma que ilustra o verbete, reforça a ideia de enfant terrible que se relaciona à sua persona.

Outra foto, no entanto, tirada no período em que viveu em Aden e Abissínia (atual Etiópia), hoje parece ela própria entrar em choque com a idealização da imagem de "príncipe-poeta".

Entre os livros que reúnem a produção de Rimbaud destacam-se "Une Saison en enfer" e "Iluminations", além de poemas como Bateau ivre ("Barco Ébrio").

Enquanto esperava uma carta de Paul Verlaine, Rimbaud resolveu escrever um grande poema que seria a ilustração direta de sua nova ética, uma obra indiscutivelmente de fôlego. Delahaye o viu, deitado num barco, ao pé do Velho Moinho, o rosto contra a água, interrogando o fundo do rio, onde, entre as manchas de sol, a corrente fazia ondular a longa cabeleira das plantas aquáticas. Ele havia apenas conservado a ideia do tema de O Navio Fantasma — que Leon Dierx acabava de tratar há pouco no Parnasse Contemporain —, ou, mais exatamente, ele o incorporara, pois o barco sem rumo pelo espaço sideral, sob o céu implacável ou nas profundezas glaucas, é ele, sua alma, liberada enfim de suas amarras.

Início da vida e trabalhos

Arthur Rimbaud nasceu no seio da classe média provincial de Charleville (hoje parte de Charleville-Mézières) no Ardennes departement no nordeste da França. Ele foi o segundo filho de Vitalie Rimbaud (Cuif, antes de se casar) e o Capitão Frédéric, que lutou na conquista da Argélia e foi premiado com a Légion d'honneur. Logo depois que o casal teve a quinta criança (Frédéric, Arthur, Victorine [que morreu um mês depois do nascimento], Vitalie e Isabelle), o pai deixou a família. Crescendo separadamente de seu pai, pelos escritos de Rimbaud é evidente que nunca se sentiu amado por sua mãe. Quando garoto era impaciente, inquieto, porém um estudante brilhante. Pela idade de quinze anos ganhou muitos prêmios e compôs versos originais e diálogos em Latim. Em 1870 seu professor Georges Izambard se tornou o mentor literário de Rimbaud e seus versos em francês começaram a melhorar rapidamente.

Ele fugia freqüentemente de casa e pode ter se unido por pouco tempo à Comuna de Paris de 1871, que foi retratada em seu poema L'orgie parisienne (“A Orgia Parisiense” ou “Paris Repovoada”); pode ter sofrido violências sexuais por soldados bêbados da comuna (e seu poema Le cœur supplicié (“O Coração Torturado”) parece sugerir). Nesta época ele se tornou um anarquista, começou a beber e se divertia chocando a burguesia local com suas vestes rotas e o cabelo longo. Neste mesmo tempo escreveu para Izambard e Paul Demeny sobre seu método para atingir a transcendência poética ou o poder visionário através do “longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos.” (Les lettres du Voyant [As Cartas do Vidente]).

Ele retornou a Paris em setembro de 1871 por um convite do eminente poeta simbolista Paul Verlaine (depois que Rimbaud lhe mandou uma carta contendo vários exemplos do seu trabalho) e residiu brevemente em sua casa. Este, que era casado, apaixonou-se prontamente pelo adolescente calado, de olhos azuis e cabelo castanho-claro comprido. Tornaram-se amantes e levaram uma vida ociosa, regrada a absinto e haxixe. Escandalizaram o círculo literário parisiense por causa do comportamento ultrajante de Rimbaud, o arquetípico enfant terrible, que durante este período continuou a escrever notáveis versos visionários.

O caso amoroso tempestuoso do Rimbaud e Verlaine os levou a Londres em setembro de 1872, Verlaine abandonando sua esposa e um filho pequeno (ambos sofriam de abusos durante as iras alcoólicas de Verlaine). Os amantes viveram em uma pobreza considerável, em Bloomsbury e em Camden Town, desprezando uma vida de ensino e uma pensão da mãe de Verlaine. Rimbaud passou seus dias no Reading Room do British Museum onde "calor, luz, penas e tinta eram de graça".

Em junho de 1873, Verlaine voltou para Paris, onde a ausência de Rimbaud foi difícil de agüentar. Em oito de julho, ele mandou um telegrama ao jovem poeta, lhe dando instruções para ir ao Hotel Liège em Bruxelas; Rimbaud concordou imediatamente. O encontro de Bruxelas foi péssimo; um argumentando contra o outro e Verlaine bebendo constantemente. Na manhã de dez de julho, Verlaine comprou um revolver e munição; à tarde, numa "fúria de bêbado", disparou dois tiros em Rimbaud, um deles ferindo o poeta de dezoito anos no pulso.

Rimbaud considerou o ferimento superficial e a princípio não acusou Verlaine. Após isto, ele e sua mãe acompanharam Rimbaud a uma estação de trem em Bruxelas, onde Verlaine se comportou como um louco. Isto fez Rimbaud sentir medo do poeta, que então se virou e foi embora. Em suas palavras "então eu [Rimbaud] implorei para um policial o prender [Verlaine]". Ele foi detido por tentativa de homicídio e submetido a um exame médico humilhante. Também foi interrogado sobre sua correspondência íntima com seu amante e sobre as acusações de sua mulher sobre a natureza de sua relação com Rimbaud, que eventualmente retirou suas queixas, porém o juiz condenou Verlaine a dois anos de prisão.

Rimbaud retornou a sua casa em Charleville e completou sua prosa Une saison en enfer (Uma Estação no Inferno), considerada pioneira nas instâncias do simbolismo moderno e escreveu uma descrição sobre sua vida de drôle de ménage (farsa doméstica) com Verlaine, seu frère pitoyable (lamentável irmão) e a vierge folle (virgem louca) por quem ele era um l'époux infernal (noivo infernal). Em 1874 retornou para Londres com o poeta Germain Nouveau e suas arrasantes Illuminations.

Final da vida (1875-1891)

Rimbaud e Verlaine se encontraram pela última vez em março de 1875, em Stuttgart, Alemanha, depois que o último saiu da prisão e se converteu ao catolicismo. Rimbaud acabou por desistir de escrever e decidiu-se por uma vida fixa, de trabalho. Alguns especulam que ele ainda possuía vivo o seu antigo estado selvagem, enquanto outros sugerem que ele buscou ficar rico e independente para algum dia poder viver como um poeta despreocupado; de qualquer forma, continuou a viajar intensivamente pela Europa, principalmente a pé.

Em maio de 1876, ele se alistou como um soldado no Exército Colonial Holandês para poder viajar livremente para Java (na Indonésia) onde prontamente desertou, retornando para a França por navio. Na residência oficial do major de Salatiga, uma pequena cidade a 46 km do sul de Semarang, capital da Província Central de Java, existe uma placa de mármore declarando que Rimbaud um dia esteve na cidade.

Em dezembro de 1878, Rimbaud chegou a Lanarca, Chipre, onde trabalhou como capataz na pedreira de uma empresa de construção. Em maio do ano seguinte, teve que deixar Chipre por causa de uma febre, que mais tarde, na França, foi diagnosticada como febre tifóide. Em 1880, Rimbaud finalmente adaptou-se em Aden como um empregado principal na agência de Bardey. Ele teve várias mulheres nativas como amantes e por algum tempo viveu com uma amante da Etiópia. Em 1884, ele deixou o trabalho na Bardey para se tornar um mercador por conta própria em Harar, Etiópia. Notavelmente, as vendas de Rimbaud incluíam café e armas.

Rimbaud desenvolveu sinovite em seu joelho direito e, subseqüentemente, um carcinoma no mesmo joelho. Seu estado de saúde o forçou a partir para a França em 9 de maio, onde foi admitido num hospital em Marseille, e ali teve sua perna amputada no dia 27 de maio. Após uma curta estada na casa de sua família, voltou a viajar para a África, mas sua condição médica piorou durante a viagem, e logo foi readmitido no mesmo hospital em Marseille. Lá, após algum tempo de sofrimento e eventuais visitas de sua irmã Isabelle, Rimbaud morreu a 10 de novembro de 1891, com apenas 37 anos, e seu corpo foi enterrado no jazigo da família em Charleville.

Esta página é um ensaio biográfico de uma das pessoas mais extraordinárias que já apareceram sobre a terra. Arthur Rimbaud foi um milagre, um fenômeno de ordem sobrenatural por sua precocidade assustadora e pelo mistério de seu destino, que permanece impenetrável como seu gênio mesmo.

Ficamos desconcertados ao saber da existência de um adolescente que compôs, entre quinze e dezenove anos, poemas fulgurantes e visionários, de uma beleza estranha; prosas inauditas; e que ele tenha atingido os cimos do pensamento então inviolados.

Ficamos confusos face á idéia de que este personagem tenha inexoravelmente renunciado à literatura aos dezenove anos e que, na segunda fase de sua breve existência, tenha realizado prodígios dignos de um herói em longas e fantásticas caminhadas, percorrendo a Europa e os oceanos, dando-se a mil e uma ocupações para ganhar a vida, aprendendo uma porção de línguas, para malograr, finalmente, na África, onde cumprirá o resto de seu ciclo infernal em atrozes condições e morrer como um mártir aos trinta e sete anos.
Assim foi a vida trágica de Arthur Rimbaud, um dos únicos na história dos homens.
A magia de seu verbo e o mistério de seu destino continuarão a exercer sobre nossa sensibilidade um poder exaltante de sonho e de emoção.




Un coin de table (Um canto de mesa), Henri Fantin-Latour, 1872. Sentados, a partir da esquerda, os poetas simbolistas Paul Verlaine (1844–1896) e Arthur Rimbaud (1854–1891), Elzéar Boonier, Léon Valade, Émile Blémond; Jean Aicard, Ernest d'Hervilly e Camille Pelletan (em pé). – Musée d'Orsay, Paris – Larousse.fr

Arthur Rimbaud foi um milagre, um fenômeno de ordem sobrenatural por sua precocidade assustadora e pelo mistério de seu destino, que permanece impenetrável como seu gênio mesmo.

O adolescente que compôs, entre quinze e dezenove anos, poemas fulgurantes e visionários, de uma beleza estranha; prosas inauditas; e que ele tenha atingido os cimos do pensamento, até então inviolados.

Mas uma pergunta fica no ar... Por que este personagem renunciou à literatura aos dezenove anos e que, na segunda fase de sua breve existência, tenha realizado prodígios dignos de um herói em longas e fantásticas caminhadas, percorrendo a Europa e os oceanos, dando-se a mil e uma ocupações para ganhar a vida, aprendendo uma porção de línguas, para malograr, finalmente, na África, onde cumprirá o resto de seu ciclo infernal em atrozes condições e morrer como um mártir aos trinta e sete anos?

Quando partiu para o continente africano, tinha algumas economias de que se orgulhava: aproximadamente quatrocentos francos. Uma vida nova abria-se para ele, rica de possibilidades e de esperança. Os horizontes mágicos da Abissínia e de Zanzibar ofereciam-se a seus sonhos. Como aqueles lugares fabulosos eram bonitos no mapa!

Mas, perdendo-se na teia de aranha por ele mesmo tecida entre Aden e Djibuti, Zeilah e Harar, só iria abandonar aquele inferno ao ser alcançado pela morte.
Assim foi a vida trágica de Rimbaud, único na história dos homens.
A magia de seu verbo e o mistério de seu destino continuarão a exercer sobre nós um poder exultante de sonho e de emoção.

A vida terrestre de Arthur Rimbaud terminou exatamente no mesmo dia em que um editor parisiense publicava a primeira coletânea de suas poesias destinada ao grande público.
Seu destino foi, ser só, terrivelmente e sempre só. Por outro lado, era um ardenês, isto é, um temperamento inflexível e difícil. Ele deixou na África alguns amigos que o choraram com sinceridade, mas antes ele brigara com quase todos os que o conheceram (Izambard, Verlaine, Todos os parnasianos, Alfred Bardey, etc.) e abandonara os outros (Delahaye, Nouveau). Sua morte o conciliou com todos. As palavras desagradáveis, os acessos de raiva foram esquecidos, e cada um, sufocando o ressentimento, foi prestar à sua memória uma homenagem de fidelidade e amizade. Graças a eles, às lembranças de uns, aos fantasmas ou uma personagem mítica, mas como um ser de carne e sangue, bem perto de nós.

Devemos isto sobretudo a Verlaine: sem a fé que não parou de animar o autor de Romans sans Paroles, Rimbaud teria deixado apenas a lembrança de um boêmio de vanguarda que assustou o Quartier Latin durante uma ou duas estações.

Em 1881, o nome de Rimbaud era quase totalmente desconhecido do público letrado.
Foi quando Verlaine concebeu o projeto temerário de revelar que genial poeta fora o seu amigo desaparecido. Não possuía mais nada dele, nem manuscritos, nem cópias, nem documentos, tudo havia sumido no naufrágio de sua vida.
Uma de suas primeiras providências é significativa: em setembro de 1881, ele arrisca pedir a Léon Valade, com quem estava brigado há dez anos, para lhe enviar, se ele os tinha, "Vaisseau ivre" (sic) e os "Veilleurs", de Rimbaud (Este poema não foi encontrado). Aí está a prova de que sua memória era também falha.
Depois de dois anos de pacientes pesquisas, Verlaine estava pronto para publicar um pequeno estudo sobre o sr. Arthur Rimbaud, poeta maldito, num jornalzinho do Quartier Latin, Lutèce (outono de 1883). Dele citava, a partir de cópias mais ou menos corretas, "Voyelles", "Le bateau ivre", "Les assis", e alguns poemas ou fragmentos; o essencial estava salvo. Essa publicação valeu duas visitas a Verlaine, uma de um jovem poeta, Rodolphe Darzens, que prometeu ajudá-lo, e outra, de um certo sr. Georges Izambard, que declarou ter sido em Charleville professor e amigo "daquele Arthur", conforme as palavras de Verlaine. Pouco depois, Izambard trouxe para Verlaine, extasiado, todo o seu dossiê Rimbaud, que compreendia poemas, deveres, provas, cartas. Infelizmente, Verlaine teve a imprudência de confiar aqueles tesouros a seu editor Léon Vanier, que, durante muito tempo, não quis restituí-los de jeito nenhum — e vendeu até vários deles (especialmente a Darzens).
Três anos mais tarde, Mathilde Mauté, a ex-mulher de Verlaine, estando perto de se casar de novo, permitiu que seu irmão, Charles de Sivry, confiasse ao diretor de uma revista (La Vogue), para publicação, as Illuminations de Rimbaud que Verlaine havia emprestado a de Sivry para musicá-las, juntamente com outros poemas de 1872 (É o que se supõe. Não há outra razão plausível para que Verlaine as emprestasse. Nota). Até então, ela se opusera a essa publicação, temendo despertar incômodas lembranças. E só permitiu sob a condição de Verlaine não ter nisto nenhuma participação. No entanto, ele escreveu o prefácio da coletânea que apareceu no fim de 1886. O sucesso foi grande, mas limitado. Rimbaud era conhecido só por uma elite; falavam dele como de uma personagem lendária, como de "uma voz do além". aproveitando de sua ausência, alguns jovens inconseqüentes tiveram a ousadia de lhe atribuir alguns sonetos no mais puro estilo decadente, com que o Quartier Latin se divertiu nos anos 1889-1890. Verlaine se insurgiu, mas não tinha muita força sobre a nova geração; doente, arrastava-se de hospital em hospital. Teve que lutar durante muito tempo para que acabassem com aquela brincadeira de mau gosto. Como conseguira novos textos, autênticos, de seu amigo desaparecido, ele se preparava para fazer um volume de suas obras, aí compreendida Une Saison en Enfer, que Darzens havia reencontrado. Deveria ser uma edição de luxo, com desenhos de Forain e de Régamey. Mas Darzens não perdia tempo. Tendo solicitado a Paul Demény, diretor de uma revista literária, La Jeune France, os dois cadernos de Douai escritos por Rimbaud e reunindo seus poemas de 1870, a maioria desconhecidos, teve a audácia de preparar, de sua parte, uma grande edição. Verlaine estava derrotado: suas cópias, mais ou menos exatas, não tinham o mesmo valor dos magníficos autógrafos que possuía o seu rival. Mas o editor deste último quis andar depressa demais. Aproveitando da ausência de Darzens, que tinha ido a Marselha falar com Rimbaud moribundo (ele pôde vê-lo, mas não lhe falar), precipitou a publicação e de suas impressoras saiu um volume intitulado Reliquaire, precedido de um prefácio com notas esparsas, sem estilo e com palavras muito cruas. Naturalmente, Darzens abriu um processo, a Justiça apreendeu a obra, e o editor teve que fugir para o estrangeiro. Este escândalo era bem ao gosto de Verlaine. Darzens quisera lhe passar a perna, agora tinha o troco. De posse dos preciosos textos do Reliquaire, ele se apressou em publicar, no fim de 1891, o grande volume das Poésies Complètes de Rimbaud, com que sonhava há dez anos. Logo as provas estavam prontas, quando um acontecimento imprevisto pôs tudo a perder.


Isabelle Rimbaud, depois do enterro do irmão, retirara-se para Roche com a mãe. Ora, em dezembro de 1891, ela ficou surpresa ao saber, através de um artigo de Louis Pierquin, em Le Courrier des Ardennes, que seu irmão Arthur era o autor das mais belas poesias que já se escreveu. Pouco depois, ao conseguir o Reliquaire, ela pulou quando leu o prefácio onde seu irmão era descrito como um ser cruel e fingido, e ficou escandalizada quando viu publicados poemas de um tom revoltante como "Les premières communions".
Sua reação foi instantânea: mandou dizer a Louis Pierquin e, através deste, a Verlaine, que proibia formalmente toda publicação das obras de seu irmão. Então, lentamente, com paciência e delicadeza, Pierquin se empenhou em dobrá-la: podiam publicar apenas alguns poemas escolhidos com um prefácio que Pierquin escreveria... admitiu Isabelle. Ela lhe ditou um prefácio bem piedoso que foi levado ao editor Vanier, que o engavetou. (Isto se passou em 1893.) Verlaine, embora não estivesse de acordo, teve a sensatez de ficar à parte e a habilidade de seduzir Isabelle escrevendo um soneto: "Toi mort, mort, mort...", cujo último verso deve ter agradado a ela:

"Rimbaud, pax tecum sit, Dominus sit cum te".

Sempre ganhando terreno, Pierquin terminou por convencer Isabelle de que era preciso publicar tudo. Mas, no último momento, ele teve a elegância de não aparecer e deixou o prefácio a cargo de Verlaine, que ela aceitou de olhos fechados. "A justiça foi feita e bem-feita...", escreveu Verlaine quando apareceu o volume (fim de 1895). Sim, foi-lhe feita justiça, cabendo-lhe a honra de apresentar ao grande público o jovem desconhecido que, quinze anos antes, confiara nele e lhe pedira ajuda. Alguns meses mais tarde, Verlaine morreu; ele podia partir tranqüilo, sua missão estava cumprida.

Isabelle dedicou o resto de seus dias à lembrança e à glória de seu irmão. Um mês depois da morte de Verlaine, recebeu uma carta entusiasmada de um jovem poeta e artista, Pierre Dufour, que assinava Paterne Berrichon.

Rimbaud o tinha enfeitiçado. Juntos, comungaram na lembrança do poeta, e no ano seguinte ele pediu à sra. Rimbaud a mão de sua filha. Não sem apreensão, ela a concedeu. O casamento realizou-se em 1 de junho de 1897.

Com uma paixão inquebrantável, eles colocaram Rimbaud num pedestal que nos parece hoje discutível, mas sobretudo, empenharam seus esforços para difundir sua obra (edição de 1912, prefaciada por Paul Claudel) e recolher todos os depoimentos daqueles que o conheceram (Vie de Rimbaud, escrito por Berrichon, em 1912).

Eles também cumpriram sua missão. Depois, outros pesquisadores ocuparam seu lugar, animados de um igual fervor, descobrindo manuscritos, rascunhos, gravuras e documentos, melhorando incansavelmente os textos segundo os originais.

No céu da poesia, o nome de Arthur Rimbaud brilha para sempre como uma estrela de primeira grandeza.

Depoimentos

André Gide

Rimbaud era para mim como um poeta demoníaco, um "poeta maldito" entre todos e gostava de o ser, com a ajuda do álcool, o "famoso gole de veneno" que ele nos convida a beber e que eu degustava com prazer, mais embriagante que qualquer outro vinho, que não podia convir senão aos fortes, eu pensava.

A que estranha danação ele não arrastaria todos os outros?

Rimbaud, com seu individualismo exacerbado, sua insubmissão. O selvagem Rimbaud. Ele assusta... mesmo preso!

... Há o que ele quis dizer, o que pensamos que ele quis dizer; mas o que ele disse sem o querer e contra si mesmo.

Rimbaud continua um mestre admirável na arte de escrever, um inventor de formas cuja originalidade não foi esgotada por nenhum de seus inúmeros imitadores.

Paul Valéry

Trechos de cartas a André Gide:

Estou embriagado com a beleza das coisas do mar e esforço-me para compreender a sua alma aventurosa e triunfal... Releia o admirável "Bateau ivre" para compreender. Essa poesia é admirável, verdadeira e um pouco louca como a bússola.

Você leu os textos em prosa de Rimbaud no fim da edição das Poesias? Esses inéditos são milagrosos (sejamos exatos). São iluminações das melhores e mais admiráveis. Queria passar duas horas com você e com elas. Você me daria a força para imaginá-las e para falar delas e, como antigamente, nelas nos embebedaríamos, você lembra, quando cada um de nós leu sozinho pela segunda vez, "Le bateau ivre". (Fevereiro de 1943.)

Georges Duhamel

Rimbaud sempre mexeu comigo, sempre me proporcionou a mesma embriaguez amarga.

O que Mallarmé não parece ter adivinhado é que o "Viajante notável" voltaria, que ia ficar, que não pararia de crescer, que sua influência se estenderia sobre todas as gerações e que aquele garoto seria no século novo não o mestre, e sim, melhor ainda, o mensageiro, o profeta de toda uma juventude febril, entusiasta, rebelde.

As páginas mais obscuras de Rimbaud, as finais, têm soberana virtude de encantamento. Exerceu sobre nossa alma seus sedutores prestígios, sua irritante magia.

Há textos obscuros de Rimbaud que nos pegam porque continuamos livres para neles encontrar o que trazemos de nós mesmos. Eles se parecem com a música pura.

A alquimia mallarmaica sempre me interessa, não me comove quase nunca. Rimbaud me comove sempre. Algumas vezes me desnorteia, outra, dilacera-me e me desespera.

O que importa é o "Fenômeno Rimbaud". O que forma para mim o objeto de muitas reflexões é "a aventura-Rimbaud", é a história daquele menino que nasceu numa família que chamamos classe média, fez seus estudos sérios sem chegar mesmo a se formar, como se tivesse compreendido que os estudos, sejam quais forem, não têm fim, e que se lança subitamente sobre a poesia como sobre uma presa, devorando-a e expelindo-a para ir concluir uma existência desesperadora, de onde todo pensamento de criação literária parece excluído, em climas terríveis, às voltas com ocupações absurdas. O que me interessa e deve interessar a todos é ver o "viajante notável" exercer-se durante alguns meses na prática de uma arte que conseguiu manter despertos ao longo de toda uma existência inúmeros espíritos, é vê-lo elaborar obras-primas surpreendentes e depois abandonar tudo isso com um dar de ombros. o que me perturba e a tantos observadores é, chegado o tempo das necessárias germinações, ver a sombra de Rimbaud voltar entre nós, ver sua obra que cabe inteira num volume, inquietar, atormentar, inspirar uma juventude ardente e, desde então, colocar inúmeros problemas aos estudiosos da literatura crítica e histórica...

Jacques Maritain

Ele procurou na Arte as palavras da vida eterna.

André Maurois

Une Saison en Enfer: o mais belo poema da língua francesa.

Henry Miller

Creio que há muitos Rimbaud neste mundo, e que seu número crescerá sempre. Creio que, no futuro, o tipo Rimbaud substituirá o tipo Hamlet e o tipo Fausto.

Rimbaud é uma curiosa mistura de audácia e timidez. Ele tem a coragem de se aventurar lá onde nenhum branco jamais pôs os pés, mas ele não é capaz de enfrentar a vida com pouco dinheiro. Não tem medo dos canibais, e sim dos brancos, de seus semelhantes.

Une Saison en Enfer: este livro é a última palavra do desespero, da revolta, da maldição.

Ele combateu até o extremo limite de suas forças. E é por isso que seu nome, como o de Lúcifer, continuará glorioso.

Nele havia luz, uma maravilhosa luz, mas ela não devia se espalhar antes que ele morresse.

Jean-Marie Carré

Rimbaud reuniu em um grau sobre-humano toda a grandeza e toda a miséria humanas de um poeta de gênio devorador, mas com a instabilidade fatal que se consumiu em sua chama implacável.

Nenhum poeta exerceu tais sortilégios. Os outros poetas envelheceram, Rimbaud continua inesgotável.

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