(Alfred de Musset)
1860
Nós estávamos sós; era de noite;
Ela
curvara a fronte, e a mão formosa,
Na embriaguez da cisma,
Tênue
deixava errar sobre o teclado;
Era um
murmúrio; parecia a nota
De aura
longínqua a resvalar nas balças
E temendo
acordar a ave no bosque;
Em torno
respiravam as boninas
Das
noites belas as volúpias mornas;
Do parque
os castanheiros e os carvalhos
Brando
embalavam orvalhados ramos;
Ouvíamos
a noite; entrefechada,
A rasgada janela
Deixava
entrar da primavera os bálsamos;
A várzea
estava erma e o vento mudo;
Na
embriaguez da cisma a sós estávamos
E tínhamos quinze anos!
Lúcia era loira e pálida;
Nunca o
mais puro azul de um céu profundo
Em olhos
mais suaves refletiu-se.
Eu me
perdia na beleza dela,
E aquele
amor com que eu a amava — e tanto! —
Era assim
de um irmão o afeto casto,
Tanto
pudor nessa criatura havia!
Nem um
som despertava em nossos lábios;
Ela
deixou as suas mãos nas minhas;
Tíbia
sombra dormia-lhe na fronte,
E a cada
movimento — na minh’alma
Eu
sentia, meu Deus, como fascinam
Os dous
signos de paz e de ventura:
Mocidade da fronte
E primavera d’alma.
A lua
levantada em céu sem nuvens
Com uma
onda de luz veio inundá-la;
Ela viu
sua imagem nos meus olhos,
Um riso
de anjo desfolhou nos lábios
E murmurou um canto.
........................................
Filha da
dor, ó lânguida harmonia!
Língua
que o gênio para amor criara —
E que,
herdara do céu, nos deu a Itália!
Língua do
coração — onde alva idéia,
— Virgem
medrosa da mais leve sombra, —
Passa
envolta num véu e oculta aos olhos!
Que
ouvirá, que dirá nos teus suspiros
Nascidos
do ar, que ele respira — o infante?
Vê-se um
olhar, uma lágrima na face,
O resto é
um mistério ignoto às turbas,
Como o do
mar, da noite e das florestas!
Estávamos
a sós e pensativos.
Eu
contemplava-a. Da canção saudosa
Como que
em nós estremecia um eco.
Ela
curvou a lânguida cabeça...
Pobre
criança! — no teu seio acaso
Desdêmona
gemia? Tu choravas,
E em tua
boca consentias triste
Que eu
depusesse estremecido beijo;
Guardou-a
a tua dor ciosa e muda:
Assim,
beijei-te descorada e fria,
Assim,
depois tu resvalaste à campa;
Foi, com
a vida, tua morte um riso,
E a Deus
voltaste no calor do berço.
Doces
mistérios do singelo teto
Onde a inocência habita;
Cantos,
sonhos d’amor, gozos de infante,
E tu,
fascinação doce e invencível,
Que à
porta já de Margarida, — o Fausto
Fez hesitar ainda,
Candura
santa dos primeiros anos
Onde parais agora?
Paz à tua alma, pálida menina!
Ermo de
vida, o piano em que tocavas
Já não
acordará sob os teus dedos!

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